Jogando com as palavras

 Vivemos mergulhados num mar de palavras e nos acostumamos, desde pequeninos, a olhar através delas para enxergar o mundo dos significados, da mesma forma que olhamos através da janela para enxergar a paisagem.

Se, no entanto, fixarmos o olhar na própria vidraça - isto é, se examinarmos os sons, as letras ou os elementos que constituem uma palavra, em vez de procurar o seu sentido, vamos ingressar num campo de puro divertimento. Se você gosta das palavras, como eu, experimente recombinar morfemas, permutar letras, trocar sílabas de lugar, e vai ficar surpreso com as coincidências que vai descobrir.

Você, meu caro leitor, certamente já tinha notado que a palavra anilina provém de anil (azul), embora hoje exista em várias cores; mas terá percebido, também, que ela é um palíndromo, isto é, que pode ser lida de trás para frente, com o mesmoresultado?

Este lado lúdico da linguagem está bem vivo para as crianças; elas decidem quem vai começar a brincadeira por meio de jogos de escolha rimados, desprovidos de sentido, como "uni-duni-tê, salamê mingüê", ou "una, duna, tena, catena", e se encantam com os trava-línguas, com o jogo da forca, com a língua do P, com os trocadilhos e as adivinhas. Já os mais taludos, como eu, enfrentam as palavras cruzadas, as charadas, os palíndromos ou os acrósticos, entre dezenas de proezas e acrobacias verbais que o homem inventou para se divertir. Mostro, abaixo, algumas interessantes variações:

Palavra-valise  é formada pela união de pedaços de duas outras palavras. Geralmente se usa o início de uma e o final da outra. Trouxemos bit (binary digit), infomercial (informação + comercial) e motel (motor hotel) do Inglês; aqui, formamos portunhol (português + espanhol), televizinho (televisão + vizinho), estagflação (estagnação + inflação), aborrescente (aborrecer + adolescente), showmício (show + comício).

Millôr Fernandes iniciou a moda de montar palavras-valise imaginárias (cartomente - uma adivinha que nunca diz a verdade) ou interpretar palavras comuns como se tivessem essa dupla construção: cerveja - sonho de toda revista; melancólica - dor de barriga provocada por excesso de melão.

Spoonerismo - É um trocadilho em que ocorre uma troca de sons entre duas palavras, como transformar 'Jair Bolsonaro' em 'Bair Jolsonaro' e 'eu entendi a referência' em 'eu referi a intendência'. Seu nome vem de W. A. Spooner, um desastrado pregador britânico que ficou famoso por esses lapsos involuntários. Millôr tem uma hilariante versão da fábula do bode e da raposa, intitulada A baposa e o rode, totalmente escrita em spoonerismos

Anagrama - Consiste em uma palavra obtida pela recombinação das letras de outra; é indispensável que a nova palavra utilize exatamente as mesmas letras. Um bom anagrama deve ter o seu significado relacionado de alguma forma com a palavra original, algumas vezes com efeito satírico ofensivo. Os nomes Alice e Belisa , por exemplo, nasceram da recombinação das letras de Célia e Isabel, respectivamente. É clara a intenção simbólica de José de Alencar, ao batizar de Iracema - anagrama de América - a heroína de seu romance indianista, assim como é puro jogo de maledicência apontar que Axl Rose é o anagrama de oral sex e argentino é o anagrama de ignorante.

Lipograma - Do grego lipo ("retirar") e grama ("letra"). Eis uma boa definição lipogramática, sem usar o E: "Isto constitui um lipograma: uma oração, um parágrafo, um capítulo, um livro todinho composto faltando um dos nossos símbolos gráficos; no caso atual, omiti a vogal situada após o D". O lipograma já era cultivado entre os gregos; no século 17, o espanhol Alonso de Alcalá escreveu cinco novelas de amor que omitiam, sucessivamente, as cinco vogais no espanhol. O endiabrado George Perec (1938 - 1982), membro do Ou.Li.Po. (grupo dedicado a jogos verbais e literários), escreveu o romance La disparition ("O Desaparecimento") omitindo a vogal E, a mais usada no Francês.

Pangrama - Texto que utiliza todas as letras do alfabeto (do grego pan, "todas", e grama, "letras"). Um bom pangrama deve usar o menor número possível de letras e não ser desprovido de sentido. Quem sempre se interessou por este tipo de jogo foram os tipógrafos e os professores de datilografia, preocupados em acostumar os alunos com a totalidade do teclado. No inglês, a frase The quick brown fox jumps over the lazy dog ("A lépida raposa marrom pula por cima do cachorro preguiçoso") tem oito falhas (oito letras repetidas), mas o seu simpático significado fez dela o exemplo mais conhecido de pangrama. No Português, não se incluirão o W, o Y e o K, que não pertencem a nosso alfabeto oficial. Se alguém aí quiser tentar, mande o resultado para esta coluna.

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Gravação - Via Embratel (teste - dezembro / 2011)

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