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Mostrando postagens de fevereiro, 2022

Feiura perdeu o acento, Piauí não. Por que?

 Sai não tem acento. Saí tem. Saudade não tem. Saúde tem. De tão repetida, a regra tornou-se mais conhecida que a tentação de Adão e Eva. O professor a ensina. Os alunos a memorizam. Os manuais a ilustram. Os concursos a cobram. Em suma: ignorá-la é como desconhecer que a noite vem depois do dia. Grandes e pequenos trazem na ponta da língua os quatro requisitos para a quebra do ditongo. Um: o u ou o i têm de ser a sílaba tônica. Dois: têm de ser antecedidos de vogal. Três: têm de formar sílaba sozinho ou com s. Quatro: não podem ser seguido de nh. Exemplos? Há pra dar e vender: saí (sa-í), saída (sa-í-da), egoísta (e-go-ís-ta), saúva (sa-ú-va), baús (ba-ús), contribuí (com-tri-bu-í), possuís (pos-su-ís). Mas: rainha (ra-i-nha), campainha (cam-pa-i-nha), ladainha (la-da-i-nha). Mas eis que vem a acordo ortográfico. Ele manda pras cucuias um acentinho que atinge talvez meia dúzia de palavras. Trata-se do agudo usado no u e i das paroxítonas quando antecedidos de ditongo. É o caso de ...

Bahia com H e baiano sem - por quê?

 Por que Bahia se escreve com h bem no meio? A história vem de longe. Em tempos idos e vividos, o h indicava o hiato. Grafava-se bahia, sahida, pirahy. Sem o h, a leitura seria báia, sáida, pirái. Depois, o acento tomou o lugar do h. Mas o estado manteve a letra com a qual tinha sido batizado. Os donos do pedaço diziam que Bahia sem h não é Bahia. É acidente geográfico. Disse o poeta Denis Brean Dá licença, dá licença, meu senhor Dá licença, dá licença, pra yôyô Eu sou amante da gostosa Bahia, porém Pra saber seu segredo Serei baiano também Dá licença, de gostar um pouquinho só A Bahia eu não vou roubar, tem dó! Ah! Já disse um poeta Que terra mais linda não há Isso é velho e do tempo que a gente escrevia farmácia com PH! Olho vivo Bahia se escreve com h. Mas os derivados perderam o privilégio. Sob protestos, aderiram à simplificação. Assim: baiano, baianidade, baianês, coco-da-baía. Sabia? Piauí se escrevi Piauhy pela mesma razão que Bahia se escrevia Bahia. Humilde, abdicou do h....

Que - com ou sem acento?

 Que sem acento ou que com acento? Quase sempre sem. O acento se usa em duas ocasiões. Uma: quando o que é substantivo. Aí, como bom substantivo, tem plural. Os atores têm um quê especial. Dois quês me chamam a atenção. O professor manda cortar os quês da redação. Também tem acento quando está no fim da frase, no fim mesmo, colado no ponto: Você disse o quê? Quê? Você não está falando sério! O quê? Uau! Que luxo! Nada de especial. Por que, então, o quê dá nó nos miolos? Porque o danado muda de time a torto e a direito. Ora é conjunção. Ora preposição. Ora advérbio. Ora partícula expletiva. Ora pronome. Ora substantivo. Os quatro primeiros não dão problemas. Apresentam-se sempre com a mesma cara. As duas outras dão enxaqueca. Às vezes pedem chapéu. Outras vezes dispensam o acessório. 

Herói tem acento. Heroico não. Por quê?

 O pai de toda a confusão é o ditongo oi. As letrinhas podem ter duas pronúncias. Uma: aberta. Aí a duplinha será acentuada se aparecer nas oxítonas ou nos monossílabos tônicos (herói, lençóis, dói, mói, corrói, Niterói). Nas paroxítonas, o grampinho não tem vez (heroico, paranoia, joia, jiboia, tireoide, espermatozoide, eu apoio). A outra: fechada. Nada de acento. É o caso de comboio ou do substantivo apoio.