Palavras inventadas que não 'pegaram'

No final do século XIX, o latinista Antônio de Castro Lopes decidiu investir contra as palavras de origem francesa e inglesa que, segundo ele, contaminavam a língua portuguesa. Patriota como um Policarpo Quaresma, o professor Castro Lopes inventou palavras à partir de uma pretensa etimologia genuína do Português e as compilou no livro Neologismos Indispensáveis e Barbarismos Dispensáveis. Vejamos alguns exemplos extraídos do livro.


Cinesíforo foi inventada para substituir chofer (do francês chauffer), mas não pegou. Cinesíforo, formada de cinesis- (do grego kinesis, movimento) + -foro (do latim fero, provoco, causo), tinha tudo para cair no esquecimento e caiu. Apesar da palavra chofer continuar viva, seu significado foi deslocado para o indivíduo que dirige profissionalmente. Hoje, utilizamos a palavra motorista para designar o condutor de automóvel em geral. Cine significa 'movimento', daí a cinemática - na física que estuda o movimento e o cinema - que é a imagem em movimento.


Alvissareiro deveria substituir repórter, anglicismo proveniente do verbo inglês “to report” que, por sua vez, vem do latim reportare, formado de re- (de novo) + -portare (levar), significando a ideia de que a notícia é levada ao repórter que a leva novamente ao público. Mas a verdade é que ‘alvissareiro’ também não pegou, prevalecendo até hoje o anglicismo.

Segundo o prof. Castro Lopes, as manchetes dos jornais deveriam dar “Os ludâmbulos invadiram o Brasil para a Copa do Mundo”. Mas quase ninguém entenderia, né?! Ludâmbulo foi a palavra criada pelo professor para substituir turista (do inglês tourism e que chegou ao português por meio do francês tourisme). Ainda bem que não pegou, prevalecendo o estrangeirismo até hoje.


No entanto, algumas palavras inventadas pelo professor acabaram pegando e entraram para o dia a dia dos brasileiros. É o caso da palavra estreia, em substituição ao vocábulo francês début, e da palavra cardápio, que hoje convive pacificamente com menu, também de origem francesa. Menu também é usada no sentido de lista de opções à disposição do usuário.


Machado de Assis ficou profundamente irritado com as propostas contidas no livro. Em crônica de 1888, inconformado com as invenções idiomáticas de Castro Lopes, o autor ameaçou: “Mando meu ofício à fava, e passo a falar por gestos.” Para o grande escritor brasileiro e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, a língua não atende à canetadas.

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Gravação - Via Embratel (teste - dezembro / 2011)

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