Crase - gramática: Cegalla

 A palavra crase (do grego krásis = contração) designa, em gramática normativa, a fusão de dois sons vocálicos iguais.


Leia o seguinte trecho de um conto de Machado de Assis e observe que ora ocorre a crase, ora não ocorre.


Não digo as vezes que andei de um lado para o outro, na sala, no corredor, à espreita e à escuta, até que de todo passou a possibilidade de vir. Poupo a notícia do meu desespero, o tempo que rolei no chão, falando, gritando ou chorando. Quando cansei, escrevi-lhe uma longa carta; esperei que me escrevesse também, explicando a falta. Não mandei a carta, e à noite fui à casa deles.


Nas orações, ocorre crase quando a preposição a se funde com:

§  o artigo a e suas flexões: Assistimos à peça de teatro.

§  a vogal a que inicia o pronome demonstrativo aquele e suas flexões: Não me refiro àqueles livros.

§  o pronome demonstrativo a e sua flexão: Sua assinatura é referente à de meu irmão.

Existe um macete muito comum: substituir a palavra feminina por uma masculina, se aparecer AO, haverá crase na feminina.

Fui à farmácia. - substituindo por 'laboratório', temos: Fui ao laboratório.

Vendi a casa. - substituindo por 'apartamento', temos: Vendi o apartamento.


Ocorre crase:

a)    Antes de substantivo feminino que exija artigo.

Adaptei-me à turma.


b)   Antes de nomes de localidades, quando estes admitirem o artigo a.

Viajaremos à Colômbia.


Obs.: Porém, nem todos admitem artigo.

Viajaremos a Curitiba. à Venho de Curitiba.

*Haverá crase se o substantivo vier acompanhado de adjunto:

Vou à Curitiba dos meus sonhos.

No sufoco, use o bom e velho macete:

se vou à e volto da, acento lá no A! 

se vou a e volto de, acento para quê? 

se está especificado, acento vai ter!


c)    Antes de numeral seguido da palavra hora, mesmo subentendida.

Chegaremos às quatro horas.

Fui dormir às duas da manhã.


d)   Quando se puder subentender as palavras moda ou maneira.

Ela usava um salto à Luís XV.

Costumava escrever à Guimarães Rosa.


e)    Quando o artigo está desacompanhado do respectivo substantivo.

O atleta correu da quadra de tênis à de basquete. à ...da quadra de tênis a + a quadra de basquete.


f)    Antes da palavra casa, se esta vier determinada.

Retornou à casa paterna.

Vamos à casa de minha avó.

Obs.: Se a palavra casa tiver o sentido de moradia, não haverá crase:

                Chegamos a casa cansados.


g)    Antes da palavra terra, se esta não for antônima de bordo.

Voltou à terra onde nascera.

Vendo o tubarão, o surfista retornou logo a terra (terra = opõe-se a mar).


Não ocorre crase:

a)    Antes de substantivo masculino.

Iremos a cavalo.


b)   Antes do artigo indefinido uma.

Foi a uma igreja rezar.


c)    Antes de verbo.

Ela passou a viver da venda de cosméticos.

Pode haver um A antes de verbo flexionado, mas não será preposição, e sim pronome oblíquo.

Quando houver um artigo antes de verbo substantivado, será um artigo masculino, e não feminino.


d)   Antes de expressões de tratamento, exceto senhora, senhorita, dona e madame.

Enviamos a Vossa Senhoria os documentos.


e)    Antes de pronomes que não admitem artigo, como os pessoais, indefinidos, demonstrativos, relativos e interrogativos (ele, ela, você, mim, ti, alguém, ninguém, qualquer, quem, qual, cuja, este, esse, esta, essa, isto, isso).

A criança, a quem ajudamos, voltou para a casa sã e salva.

Não devo nada a ninguém.

Disse a verdade a ela.

A quem você deve dinheiro?

Chegamos a essa conclusão.


f)    Antes de palavra feminina em sentido indeterminado.

Não assisto a peças que não tenham um bom elenco.

Haverá crase se o A vier seguido de S.

Sempre vou às festas da escola e às reuniões da empresa.


g)    Na locução a distância, quando não especificada.

O líder assistia a tudo a distância. (locução adverbial)

O líder assistia a tudo à distância de cem metros. (locução prepositiva)


h)   Entre substantivos repetidos.

Os guerreiros ficaram face a face.

O vendedor foi de porta a porta.

As crianças tomaram o remédio gota a gota.


Uso facultativo da crase:

Pode-se usar ou não a crase nos seguintes casos:

a)    Antes de nome próprio feminino, porque antes de qualquer nome próprio o artigo é facultativo.

Ofereci um poema a (ou à) Helena.

Se o nome vier qualificado, será obrigatória: Enviei o telegrama à culta Beatriz.

Com pessoas célebres, não se usa, a menos que haja um adjunto adnominal: Referiu-se a Cecília Meireles. / Referiu-se à romântica Cecília Meireles


b)   Antes de pronome possessivo feminino no singular: minha, tua, sua, nossa e vossa. Antes de qualquer pronome possessivo o artigo é facultativo.

Dirigiu a palavra a (ou à) nossa secretária.

Se o possessivo estiver no plural, ou existe ou não existe: Referi-me a suas empresas. / Referi-me às suas empresas.

Se houver elipse do substantivo, será obrigatória: Fizeram homenagem à minha amiga e não à sua.


c)    Depois da preposição até, porque existem tanto a preposição até quanto a locução prepositiva até a.

Renato caminhou até a (ou à) porta.

Quando é palavra denotativa de inclusão, não possui a variante até a: Reformou até a velha casa.


d)   Com os adjuntos adverbiais de meio ou instrumento, a menos que cause ambiguidade. Neste caso, é obrigatório.

O bandido foi morto a (ou à) bala.


A crase e os pronomes demonstrativos

Usa-se a crase nos seguintes casos:

a)    Quando o pronome demonstrativo aquele e suas flexões completarem o sentido de um verbo ou nome que exija preposição.

Entregou o prêmio àquele aluno.

Chegou àquela região castigada pela seca.

Prefiro isso àquilo.


b)   No a que precede os pronomes que, quem, qual, e quais, quando o verbo ou o nome exigir preposição. Isto pode ser verificado substituindo-se o antecedente por uma palavra masculina. Se o a se transformar em ao, haverá crase.

A situação em que me encontro é semelhante à que superaste.

(O impasse em que me encontro é semelhante ao que superaste.)


A posição à qual aspiro depende de muitos esforços.

(O cargo ao qual aspiro depende de muitos esforços.)


Crase nas locuções

a)    Adverbiais: às cegas, às claras, às escondidas, à toa, às pressas, às vezes, à esquerda, à direita, à tarde, à noite, à vontade, à beça, à disposição, à deriva, à flor da pele, à primeira vista, à risca, à venda, às ordens, às escuras, às mil maravilhas, à beira-mar.

Partiu às pressas.

Faz tudo às claras.

O ônibus virou à esquerda.

Deu tiros às cegas.

Mariana chegará à noite.

Incluem-se também aquelas em que há elipse: à argentina, à americana, à baiana, à bolonhesa, à brasileira, à italiana, à gaúcha, à mexicana, à milanesa, à mineira, à grega, à francesa, à paulista, à parmegiana, à portuguesa, à pururuca.


b)   Prepositivas: à procura de, à beira de, à espera de, à custa de, à moda de.

Encontrei-o à beira da falência.

Permaneceu à espera de outra chamada.

Ainda vive à custa dos pais.

Estou à procura de um emprego.


c)    Conjuntivas: à medida que, à proporção que.

À medida que anoitecia, aumentava-lhe o medo.

Entusiasmava-se à proporção que falava.


Observação

Usa-se o acento grave indicador de crase nas locuções em que se pode fazer a correlação a ― na:

            À saída do teatro. (= Na saída)

            Quem ousaria incomodá-lo àquela hora? (= naquela hora)

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