Por que maldade se escreve com L?

 POR QUE MALDADE SE ESCREVE COM “L”?


 


Professora, se BEM é o contrário de MAL e BOM é o contrário de MAU, por que o contrário da BONDADE é MALDADE (com L) e não MAUDADE (com U)?


 


Pergunta boa, não acham?


 


O raciocínio do internauta que me enviou a pergunta acima é perfeito. Vejam:


 


De LEAL, faz-se LEALdade;



 


De BOM, faz-se BONdade;


 


Por essa lógica, de MAU, faríamos MAUdade!


 


Ocorre que a palavra MALDADE vem do latim MALITATE. (Note o L aí na palavra latina!!!!)


 


Essa palavra sofreu metaplasmos (mudanças na forma). A perda do I é chamada de síncope (perda de um fonema no meio da palavra). A mudança do T por D, por sua vez, recebe o nome de sonorização (que consiste na passagem de uma consoante surda à sua homóloga sonora (consoantes homorgânicas). Esse fenômeno é um metaplasmo bastante comum na história da língua e normalmente ocorre quando a consoante surda está em posição intervocálica (pacare – pagar / acetu – azedo / maritu – marido).



 


Ah… e só como curiosidade  – e também para entender o que seria aparentemente uma incoerência ortográfica – a própria palavra MAU já teve um L (a forma latina malu sofreu síncope e perdeu o L, daí veio “mau”). Isso explica a presença do L em palavras semanticamente associadas a “mau”, como “malitate”, que virou “maldade”, “malvado”, “maldoso”.


Não se aplica a regra de oposição do advérbio e do adjetivo, para saber se a palavra é escrita com L ou com U, porque a palavra correta é maldade, com L, e seu oposto é bondade.

O nosso incansável Zé Simão é o autor do bordão “Brasileiro escreve tudo errado, mas todo mundo se entende”. É assim que ele costuma introduzir as piadas prontas que aparecem em tabuletas espalhadas pelo país. “Olha esse cartaz no isopor de um ambulante: “COUXINHAS e água”. Tirante o aspecto engraçado dessas grafias, da análise desses erros sempre se extrai algum ensinamento. Por que alguém escreveria “couxinha”, com “u”? É provável que venha de uma confusão entre coxa e colcha, palavras cuja pronúncia é parecida. O “l” que se apoia em vogal e a semivogal  “u” dos ditongos /w/tendem a ter a mesma pronúncia (polpa, poupa; mal, mau), o que acarreta erros de grafia.

O caso do par mal/mau, tantas vezes ensinado com o truque de estabelecer oposição com o par bem/bom, é dos que mais causam confusão. Ultimamente têm aparecido as grafias “maudade” e “maudoso”, que certamente muitos dos leitores já viram por aí. É bem possível que essas grafias (incorretas) estejam apoiadas nesse truque de memorização, tantas vezes repetido. As pessoas que assim escrevem pensam que, se dizemos “bondade” (não “bendade”) e “bondoso” (não “bendoso”), deveríamos escrever “maudade” e “maudoso”, afinal “bom” se opõe a “mau”, certo?


Nada disso. A palavra “maldade”vem do latim malitas, atis (ruindade, dano, prejuízo), portanto formou-se antes de chegar ao português. “Maldoso”, por sua vez, segundo o dicionário “Houaiss”, deriva de “maldade”, termo ao qual se acresceu o sufixo “-oso” (de abundância). Assim, “maldade + oso”, por haplologia, resulta em “maldoso”, com o mesmo “l” de “maldade”, que veio do latim.


HAPLOLOGIA


Esse é o nome que recebe a supressão, no corpo de uma palavra, de uma de duas sílabas iguais ou muito parecidas que sejam contíguas. É o que ocorre, por exemplo, com as palavras “tragicomédia” e “tragicômico”, resultantes de “trágico + comédia” e “trágico + cômico”. Note que a última sílaba da primeira palavra é igual à primeira da segunda palavra. Em vez de tragicocomédia ou tragicocômico, operamos naturalmente a eliminação da sílaba repetida, obtendo as formas “tragicomédia” e “tragicômico”.


Quem conhece um pouco de teoria musical, sabe o que é uma “semínima”, nota musical que tem a metade da duração de uma “mínima” (semi + mínima > *semimínima > semínima); “idolatria” também resulta desse processo: ídolo + latria > *idololatria > idolatria. Muito bem: “maldade + oso” resulta em “maldoso” (não em maldadoso).


MALDADE E MALDOSO


Escrevamos, portanto, maldade e maldoso com a letra “l”. Quanto a “mau” e “mal”, pronunciados de forma muito semelhante no Brasil, vale lembrar que “mau” é adjetivo, portanto caracteriza substantivos, e “mal”, grosso modo, é advérbio, portanto modifica verbos. Vejamos um caso que leva muita gente à confusão em matéria aparentemente tão simples: mau funcionamento e funcionar mal. “Funcionamento” é substantivo, portanto pode ser “bom” ou “mau” (o bom ou o mau funcionamento das instituições), enquanto “funcionar” é verbo, portanto pode ser modificado por um advérbio (funcionar bem ou funcionar mal). É semelhante o caso de “mau humor” e “mal-humorado”, que se opõem a “bom humor” e “bem-humorado”.


MAL


A palavra “mal”, além de ser um advérbio de modo, é um substantivo (o mal) e uma conjunção subordinativa temporal, que indica o momento imediatamente posterior a uma ação (Mal chegou, foi encaminhado à sala secreta).


O HÍFEN


Segundo as regras de ortografia, o advérbio “mal” é preso por meio de hífen a palavras iniciadas por vogais (mal-entendido, mal-estar), por “h” (mal-humorado) e por “l” (mal-limpo). Nos demais casos, ocorre justaposição (malfeito, malbaratar, malcomportado, maldizer, malversação etc.).

Nesta palavra não se pode aplicar a técnica da oposição dos advérbios mal e mau, substituindo-os por bem e bom para sabermos se a palavra é escrita com l ou com u, porque a palavra correta é maldade, com l, e seu antônimo é bondade.

Da mesma forma, malvado, maldoso e maldição se escrevem com l.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Gravação - Via Embratel (teste - dezembro / 2011)

Como desbloquear canais Sky

VH1 Mega Hits > Comedy Central