Por que dizemos desinfetar, mas infectar?

 Se desinfetar é um verbo derivado formado por prefixação, o verbo primitivo deveria ser infetar (que, aliás, existe, mas como uma variante menos usada, tanto no Brasil quanto em Portugal). Ou o contrário: se o verbo primitivo é infectar, o derivado deveria ser desinfectar (que os dicionários brasileiros não registram, mas os portugueses sim).


O que ocorre é que desinfetar é de uso mais frequente do que infectar. Enquanto este está normalmente restrito ao contexto da medicina ou da informática, aquele é de uso mais popular, tanto que existe, no português brasileiro, o emprego desse verbo como uma gíria para “abandonar algum lugar”. Quem nunca ouviu: “Desinfeta daqui!”? Além disso, desinfetante, derivado de desinfetar, é um termo bastante popular, mesmo que grande parte da população brasileira não tenha acesso ao necessário produto para combater o coronavírus.


Por ser mais frequente, desinfetar sofreu um desgaste fonético mais rápido do que infectar. Nos estudos linguísticos, é antiga a constatação de que as palavras sofrem desgaste com o passar do tempo. São como rochas: quanto mais usadas, mais erosão sofrem. No caso das palavras, a erosão é fonética, como defendem os estudiosos da gramaticalização.  A relação entre frequência de uso e erosão fonética é aventada por George K. Zipf, nos anos 1930. Em The Psycho-Biology of Language, ele defende que o comprimento de uma palavra é inversamente proporcional à sua frequência de uso, e a explicação para isso é o “princípio do menor esforço”. Embora frequentemente criticado por estudiosos posteriores, Zipf foi um dos primeiros linguistas a abordar o tema.


O caso do par desinfetar/infectar é semelhante ao do par caráter/caracteres, em que o C se perdeu no termo de maior frequência de uso no português brasileiro, mas se conservou no de menor frequência, que nesse caso é o plural.  Aliás, caráter é, originalmente, um termo da tipografia, que designa qualquer símbolo pertencente a um sistema de codificação. Por metáfora, passou a designar o que é único, peculiar, identificador de algo e, daí, expandiu seu significado para vários campos (psicologia, biologia etc.), ampliando a frequência de uso e, portanto, sujeitando-se ao desgaste fonético. O plural, porém, por ser menos frequente, conservou o C latino e é mais usual na tipografia e na informática. Do plural caracteres, surgiu o singular caractere, cujo significado cobre apenas o sentido original de caráter.


Sendo o plural menos frequente do que o singular, tende a sofrer menos alterações fonéticas. Isso explica por que o timbre aberto da vogal breve latina conservou-se aberto no plural (jógos < jŏcos; pórcos < pŏrcos; fógos < fŏcos), mas tornou-se fechado no singular (jôgo < jŏcu; pôrco < pŏrcu; fôgo < fŏcu).


A forma primitiva é geralmente mais frequente do que a forma derivada, por ser menos marcada. Assim, o adjetivo primitivo (p. ex. bom) é mais frequente do que o substantivo derivado (p. ex. bondade); o substantivo primitivo (p. ex. morte) é mais frequente do que o adjetivo derivado (p. ex. mortal); o adjetivo positivo (p. ex. capaz) é mais frequente do que o antônimo derivado (p. ex. incapaz). As formas primitivas, quando mais frequentes, apresentam mais alterações em relação ao étimo latino do que as formas derivadas, que tendem a conservar fonemas latinos. São exemplos disso os pares fiel (< fidele) e fidelidade ( < fidelitate), vida (< vita) e vital (< vitale), maduro (< maturu) e imaturo (< imaturu). Umbigo sofreu mais mudança do que umbilical, assim como estômago em comparação com estomacal, advogado em comparação com advocacia, ressurreição com ressuscitar, obsessão com obcecado, conexão com conectar, estender com extensão, catequese com catequizar.


O par bênção e maldição deriva de formas latinas com os advérbios bene e male prefixados ao substantivo dictione (“dicção”, o ato de dizer), mas o primeiro, por ser mais frequente, alterou-se mais do que o segundo, senão teríamos benção e malção... Bendição ainda existe como uma alternativa a bênção, harmonizando-se com maldição, e bênção, na boca do povo, já virou bença.


Quando formas são frequentemente empregadas juntas formando uma expressão de alta frequência de uso, é comum haver uma fusão dessas formas resultando num só vocábulo: vossa mercê > você, outra hora > outrora, em boa hora > embora, o que é de > quede, não é? > né?


Também a alta frequência de uso de uma expressão longa tende a reduzi-la apenas ao primeiro elemento: controle remoto > controle; estação ferroviária > estação; casa lotérica > lotérica; medicamento genérico > genérico; décimo terceiro salário > décimo terceiro; casa funerária > funerária; exame vestibular > vestibular.


Mas há um paradoxo interessante: quanto mais frequente uma forma irregular, maior sua resistência à regularização. Sabemos que a maioria dos substantivos terminados em -ão tem o plural em -ões no português contemporâneo, o que faz das formas plurais em -ãos e -ães casos excepcionais. A tendência de regularizar as formas irregulares explica por que os plurais vulcãos, anãos e guardiães estão perdendo a concorrência com vulcões, anões e guardiões, respectivamente. Não surgiram mões e pões como alternativa aos altamente usados mãos e pães, a não ser como recurso humorístico: 

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