Estudantes perguntam
Andar de cavalo, andar a cavalo ou tanto faz? (Sofia Machado)
Sofia, a gente anda de carro, de avião, de moto, de trem, de metrô, de ônibus, de táxi, de Uber, de bonde, de bicicleta. Mas anda a cavalo. Não se esqueça.
O certo é “dar a luz a uma menina”, “dar à luz uma menina” ou tanto faz? (Gabriela de Sena)
Dar à luz significa trazer ao mundo. A mãe traz ao mundo uma menina, um menino, gêmeos. Sem repetir a preposição a. Veja: A mãe deu à luz um menino. Deu à luz gêmeos.
Por que a pronúncia de subsídio e subsolo é diferente? Muita gente fala a primeira com som de Z, em vez de som de S. (Amanda Campos)
Não é, Amanda. Subsídio se pronuncia como subsolo. O s soa ss.
Em “investiu pesadamente”, é possível trocar o advérbio por pesado, sem alterar a correção da frase? (Abigail Castilho)
É. O adjetivo também funciona como advérbio. Lembra-se da cerveja que desce redondo? O redondo significa redondamente.
Como é feita a concordância com porcentagem? (
João Felipe Cascão)
Porcentagem, João Felipe, entra no time dos partitivos. O verbo pode concordar com o número ou com o complemento. Assim:
Cerca de 20% da população saíram (concorda com 20). Cerca de 20% da população saiu (concorda com população).
“Vale tudo?”, você poderá se perguntar. Não. Às vezes a porcentagem e o complemento têm o mesmo número. Olho vivo:
Talvez 1% da população sofra da doença. Talvez 2% dos alunos boicotem o exame.
Devo dizer “recebeu duplas oportunidades de emprego”, “recebeu dupla oportunidade de emprego” ou tanto faz? (Lydia Asad)
Recebeu dupla oportunidade de trabalho, não? Assim como recebeu dupla promoção, dupla pena, dupla repreensão.
Qual é a diferença entre abusivo e abusado? (Melissa Luz Silva)
Abusivo pode ser excessivo, exorbitante (cobrança abusiva) ou autoritário, despótico (poder abusivo).
Abusado significa brigão, intrometido ou irritante.
O certo é almoço na antevéspera, na antivéspera do Natal ou tanto faz? (Gabriele Prazo)
Ante quer dizer antes. Anti, contra. O almoço antecede a véspera do Natal, não? Então é na antevéspera.
Por que a gente escreve muito com i e pronuncia “muinto”? (Pedro Pitanga)
Trata-se de contágio. A nasalidade do m pega.
Quando se usa vírgula antes do e? (Isadora Bugarin)
Vírgula antes do e? Só se forem preenchidas duas condições.
Uma: a conjunção deve ligar orações com sujeitos diferentes.
A outra: a leitura rápida der margem a interpretação errada, o que obriga o leitor a voltar a trás. Veja:
Os Estados Unidos invadiram o Iraque e a França reagiu.
Reparou? No primeiro bater de olhos, tem-se a impressão de que os Estados Unidos invadiram o Iraque e a França. Xô, confusão! Vem, vírgula: Os Estados Unidos invadiram o Iraque, e a França reagiu.
Palavras compostas como matéria-prima, obra-prima e mão-de-obra continuam ou não com hífen? (Wlyana Reis Praça)
A reforma ortográfica respeitou as duplinhas. Arco-íris, beija-flor, guarda-roupa, porta-retrato, matéria-prima, obra-prima conservam o tracinho.
Exceção? Há poucas. Paraquedas, paraquedista e paraquedismo agora se escrevem coladinhas da silva. As demais composições começadas com para mantêm o tracinho (para-choque, para-lamas, para-brisa, para-raios). Também perderam o hífen tão só, tão somente e à toa.
Mão de obra joga em outro time. O hífen deu adeus aos compostos por justaposição com o termo de ligação. São, em geral, três palavras que, soltas, nada têm que ver umas com as outras. Mas, juntas, formam um terceiro vocábulo. É o caso de pé de moleque. O trio dá nome ao doce que não pode faltar nas festas juninas e julinas.
Exemplos de criaturas desamparadas não faltam. Eis alguns: mão de obra; dia a dia; dor de cotovelo; folha de flandres; faz de conta; quarto e sala; maria vai com as outras; joão sem braço; mula sem cabeça; bicho de sete cabeças.
Ops! Cuidado com a precipitação. O adeus não atinge todas as palavras assim compostas. Dois grupos escaparam. O primeiro entra no time das exceções. Água-de-colônia, arco-da-velha, cor-de-rosa, pé-de-meia, mais-que-perfeito, ao deus-dará mantêm o hífen. O segundo se refere aos compostos que designam animais ou plantas: cana-de-açúcar, ipê-do-cerrado; joão-de-barro; bem-te-vi; bem-me-quer; porco-da-índia; canário-da-terra, castanha-do-pará. E mais uns trinta.
Quais são as restrições para o uso no texto de palavras estrangeiras? (Danilo Assad)
As línguas adoram bater papo. Umas influenciam as outras. Quanto maior o contato, maior a influência. No século 19, o português sofreu grande influência do francês. Assimilou várias palavras francesas. Abajur, garagem, bufê, balé servem de exemplo. No 20, o inglês chegou com força total. Falado pela única potência do planeta, que vende como ninguém sua música, seu cinema e sua tecnologia, impôs-se como língua internacional. O português incorporou muitos vocábulos do idioma de Shakespeare.
Como lidar com eles? Vale a regra da preferência. Dê preferência ao português. Impossível? Abra alas ao termo aportuguesado – gangue em vez de gang; xampu em lugar de shampoo; uísque, não whisky. Se houver equivalente em português, use-o: encontro em vez de meeting, desempenho em vez de performance, cardápio em vez de menu. Só se a palavra não possuir correspondente em português ou se este for pouco usado, o original tem vez. É o caso de marketing, shopping, show.
Uma substância é cancerígena ou cancerosa?
(Felipe Teixeira)
O dicionário responde, Felipe:
Cancerígena = capaz de produzir câncer: Tabaco é cancerígeno. A radiação também. Sem proteção, os raios solares podem ser cancerígenos.
Canceroso = aquele que tem câncer, da natureza do câncer: Ela extraiu o tecido canceroso. O Hospital da Abrace atende crianças cancerosas. Muitos cancerosos se curam depois do tratamento.
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Ele é um aficionado ou aficcionado?
(Nicolly Carolinee Mendes)
Ops! Nicolly, guarde isto. Aficionado — com um c só — é a forma nota 10. Aficcionado não existe. Xô!
Aficionado vem de ofício. A pessoa aficionada cultiva uma arte como se fosse seu trabalho, sua profissão. Não tem nada a ver com ficção.
Da mesma forma, o preço é acessível e não accessível.
Qual é o significado de misantropia? A grafia correta é com s ou z? (Matheus Basiliano)
Misantropia, Matheus, é aversão à sociedade e às pessoas. É o contrário de filantropia.
Quando se usa vírgula para separar adjunto adverbial? (Nycole Cardia)
Prefira a ordem direta – sujeito, verbo, complementos. Além de mais clara, ela evita erros no emprego de conjunções e vírgulas. Mas, volta e meia, a inversa tem vez. Vírgula, então, entra em campo. Com um cuidado: mesmo deslocados, sujeito e complementos não se isolam. Outros termos não gozam do privilégio. É o caso do adjunto adverbial e da oração subordinada adverbial. O lugar deles é na rabeira. Se mudarem de posto, a vírgula denuncia. Observe:
Ordem direta: O presidente se encontrou com os novos senadores na Granja do Torto.
Ordem inversa: Na Granja do Torto, o presidente se encontrou com os novos senadores. O presidente se encontrou, na granja do Torto, com os novos senadores.
Ordem direta: O presidente se encontrou com os novos senadores para discutir a reforma política.
Ordem inversa: Para discutir a reforma política, o presidente se encontrou com os novos senadores. O presidente, para discutir a reforma política, se encontrou com os novos senadores.
Não foi possível ver a calda ou a cauda do cometa?
(Pedro Tavares)
Ops, Pedro. Calda tem gosto — de morango, de chocolate, de manga. Cauda não goza desse privilégio. É o apêndice traseiro. O cachorro tem cauda. O cometa tem cauda. O piano tem cauda.
Qual é a forma correta: 1,7 bilhões ou 1,7 bilhão? (Fernanda David)
A concordância, Fernanda, se faz com o numeral que antecede a vírgula. Assim: 0,5 milhão, 1,7 bilhão, 3,45 milhões, 10,6 trilhões.
Por que se usa ponto e vírgula no meio do texto? Sempre vejo essa pontuação quando se fala em tópicos, mas lendo também percebi no meio texto. É correto? (Lizandra Santos)
A dúvida não é só sua, Lizandra. Passeie os olhos por jornais e revistas. Raramente você verá esse sinalzinho casado. Por quê? Poucos sabem empregá-lo. Ele é muito sofisticado. Basicamente, o ponto e vírgula tem dois empregos:
O primeiro
Separa termos de uma enumeração. Nesse caso, é arroz de festa de leis, decretos, portarias. Até Deus o usou:
São mandamentos do Senhor:
Amar a Deus sobre todas as coisas;
Não tomar seu santo nome em vão;
Guardar domingos e festas;
Honrar pai e mãe;
Não matar;
Não pecar contra a castidade;
Não furtar;
Não levantar falso testemunho;
Não desejar a mulher do próximo;
Não cobiçar as coisas alheias.
Reparou? O casadinho fica no meio do caminho. No lugar dele poderia estar a vírgula. Ou o ponto. Por isso, muitos nem se preocupam em empregá-lo. No aperto, partem para outra. E se dão bem.
O segundo
Torna o texto mais claro. Com isso, facilita a vida do leitor. Quer ver? Examine esta frase:
João trabalha no Senado, Pedro trabalha na Assembleia Legislativa, Carlos trabalha no banco, Beatriz trabalha na universidade, Alberto trabalha no shopping.
A frase está correta e clara. As vírgulas separam as orações coordenadas. Mas há um defeito. A repetição do verbo torna-a cansativa. O que fazer? Há uma saída. A gente mantém o trabalha na primeira oração. E mete-lhe a faca nas demais. No lugar deles, põe a vírgula:
João trabalha no Senado, Pedro, na Assembléia, Carlos, no banco, Beatriz, na Universidade, Alberto no shopping.
Valha-nos, Deus! À primeira vista, virou o samba do texto doido. Quem bate o olho na frase não entende nada. O jeito é recorrer ao ponto e vírgula. Ele vai separar as orações coordenadas:
João trabalha no Senado; Pedro, na Assembleia Legislativa; Carlos, no banco; Beatriz, na universidade; Alberto, no shopping.
Chique, não? Veja mais dois exemplos:
Eu estudo na USP; Maria, na UnB.
Alencar escreveu romances; Drummond, poesias.
Com relação ao verbo ver, quando uso ver ou vir?
(Angélica Bimbato)
Ver, Angélica, é o infinitivo. Usa-se nas locuções verbais: Vou ver o filme amanhã. Era escuro. Não pude ver direito. Devemos ver o resultado das provas na internet..
Vir é futuro do subjuntivo: quando eu vir Maria, darei o recado. Assim que vir o resultado das provas, pego o avião e vou pra casa.
A expressão “à toa” tem plural? (Débora Azevedo)
À toa pode ser adjetivo ou advérbio. Mas é sempre invariável: trabalho à toa, trabalhos à toa, briguinha à toa, briguinhas à toa, saiu à toa pelas ruas da cidade.
Depois de dois-pontos, quando usar letra maiúscula?
(Clareana de Moura)
O emprego dos dois-pontos é fácil como andar pra frente. Basta prestar atenção pra não tropeçar. A regra: olho no que vem depois:
1. Se for explicação ou enumeração, não duvide. É minúscula:
A questão era esta: nada a fazer. Na feira, selecionou as frutas: banana, laranja, pêra, maçã, uva e abacaxi.
2. Se for citação ou frase de alguém, a maiúscula pede passagem: Fernando Pessoa escreveu: “Navegar é preciso. Viver não é preciso”. O diretor foi curto e grosso: — Retire-se!
Quando e como uilizar o particípio regular e irregular dos verbos? (Mariana Lobo)
Na língua, Mariana, existem verbos generosos e sovinas. Os generosos têm mais de uma forma. No particípio, por exemplo. O particípio regular é comum, igual ao de todos os mortais. Termina em -ado (matado) e -ido (extinguido). O irregular é magrinho, reduzido (morto, extinto).
Eis exemplos de generosidade: aceitar (aceitado, aceito); entregar (entregado, entregue); expressar (expressado, expresso); expulsar (expulsado, expulso); matar (matado, morto); salvar (salvado, salvo); soltar (soltado, solto).
Há mais. Acender (acendido, aceso); benzer (benzido, bento); eleger (elegido, eleito); prender (prendido, preso); romper (rompido, roto); suspender (suspendido, suspenso); concluir (concluído, concluso); imprimir (imprimido, impresso); inserir (inserido, inserto); omitir (omitido, omisso); submergir (submergido, submerso).
Quando usar um e outro? Tudo tem seu preço. Os verbos abundantes dão e cobram. Dão variedade de expressão. Cobram especialização no emprego. Use o particípio regular com os verbos ter e haver e o irregular com ser e estar: A polícia tinha (havia) matado o ladrão antes de prendê-lo. O ladrão foi morto antes de ser preso. O ladrão está morto.
Mais exemplos: O governo tem (havia) expulsado todos os traficantes estrangeiros. Os traficantes foram expulsos. Alguns já estavam expulsos. No primeiro turno, os franceses haviam elegido um político conservador. O político conservador seria eleito de qualquer forma. Estava eleito já no primeiro turno.
Alguns verbos, como as pessoas, não são só generosos. São permissivos. Com eles, não há especialização. Vale tudo. Ou melhor, quase tudo. Talvez por haver uma tendência à economia, certos particípios irregulares empregam-se também com os verbos ter e haver: aceitar (ele tinha aceitado ou tinha aceito); eleger (eu tinha elegido ou tinha eleito); salvar (tinha salvado ou tinha salvo); matar (havia matado ou havia morto); frigir (havia frigido ou havia frito).
Qual é a regra que coloca no plural compostos como pôr do sol? (Fellipe Sousa Lopes)
Pôr do sol, Felippe, joga no time de pé de moleque, joão-de-barro, cana-de-açúcar, castanha-do-pará e pimenta-do-reino. Só a primeira palavra se flexiona. As demais se mantêm invariáveis: pores do sol, pés de moleque, joões-de-barro, canas-de-açúcar, castanhas-do-pará, pimentas-do reino.
Afinal, o certo é aterrizar ou aterrissar? Ouço com frequência as duas formas. Daí minha confusão. (Leonardo Silva)
O Vocabulário Oficial da Língua Portuguesa (Volp) é o papa da ortografia. Na dúvida, tem a palavra final. O que ele diz? Diz que existem as duas formas — aterrissar e aterrizar. Qual usar? Você decide.
Como se abreviam horas? (André Bauel)
Guarde isto, André. A abreviatura de horas é sem-sem-sem — sem espaço, sem ponto e sem plural: 8h, 8h35, 8h35min45. H maiúsculo é o símbolo do hidrogênio.
Qual a diferença entre em princípio e a princípio? (José Henrique C. M. da Silva)
Boa pergunta, José. As duas expressões se parecem, mas a preposição faz a diferença. Veja:
A princípio indica tempo. Quer dizer no começo: A princípio o Brasil era favorito nas apostas. Depois da primeira partida, perdeu 10 pontos. A princípio, o garoto tinha medo de água. Com as aulas de natação, tornou-se amante de praia e piscina.
Em princípio quer dizer em tese: Em princípio, toda mudança é boa. Estamos, em princípio, abertos a mudanças tecnológicas. Os professores, em princípio, devem ensinar e os alunos aprender.
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