Bolsonaro e o politicamente correto
Bolsonaro critica o politicamente correto. Que bicho é esse? É o contrário do politicamente incorreto — palavras e expressões que reforçam preconceitos. Negros, homossexuais, gordos, idosos, nordestinos figuram entre os alvos preferidos dos amantes das “brincadeirinhas”. Recomenda-se cuidado para não ofender nem agredir o outro. Mas muitos exageram. E como! Talvez o presidente tenha em mente os excessos que se praticam em nome da causa ao se opor a ela. Com razão. Cabeleireiro virou hair stylist. Costureira, estilista de moda (outra especialidade). Manicure, esteticista de unhas. Empregada doméstica, secretária do lar. Dona de casa, do lar ou especialista em prendas domésticas. Cego, mudo, surdo-mudo se tornaram pessoas com deficiência. Imprecisas, as novidades podem comprometer a precisão. Xô!
Dica 1
O radialista Airton Medeiros estava entrevistando ao vivo a presidente de uma associação de cegos em programada da Rádio Nacional. Tratava-a de cega o tempo inteiro até receber um papelzinho com a recomendação de que a tratasse como “deficiente visual”. Antes de obedecer à ordem, perguntou se deveria continuar tratando-a de cega ou de deficiente visual. Ela aproximou as mãos do rosto dele até tocar os óculos. Então afirmou: Deficiente visual é sua gramática, que está desatualizada. Eu sou cega.
Dica 2
Alto, baixo, gordo, magro, grande, pequeno são relativos. Alguém pode ser alto pra uns e baixo pra outros. Diga a altura, o peso, o tamanho: 1,95m, 50kg, 300km.
Dica 3
Negro é raça. Nessa acepção, use-o sem pensar duas vezes. Pelé é negro. Não é escurinho, crioulo, negrinho, moreno, negrão ou de cor (apenas no sentido de memorização, como locução adverbial).
Dica 4
Evite o adjetivo em expressões de conotação negativa. Em vez de mercado negro, mercado clandestino; lista negra, lista proibida; humor negro, humor ácido; ovelha negra, rebeldia; disputar a nega, desempatar; em vez de não sou tuas negas, diga simplesmente 'me respeite'.
Dica 5
Substitua denegrir por difamar ou caluniar, a coisa tá preta por a situação está difícil, serviço de preto por trabalho errado, até tenho amigos que são negros por vamos repensar nosso comportamento, cor de pele por rosa-claro ou bege, negrinho por brigadeiro, nega maluca por bolo de chocolate, cabelo ruim por cabelo crespo ou cacheado, criado-mudo por mesa de cabeceira, bucho cheio por satisfeito, lavar a égua por se aproveitar, feito nas coxas por mal feito, nhaca por cheiro ruim, samba do crioulo doido por confusão, boçal por ignorante ou grosseiro, a dar com pau por muito ou bastante, dia de branco por dia de trabalho, mulato por pardo, meia-tigela por sem valor ou medíocre, tem caroço nesse angu por 'aí tem coisa', negra de beleza exótica por bonita; macumba por oferenda, ebó ou despacho; inveja branca por um elogio, porque inveja é inveja. Não use mulata tipo exportação ou da cor do pecado (exceto para a novela), nem hipersexualize corpos negros.
Dica 6
Quer indicar cor? O preto está às ordens. Gordão? Nem pensar. Diga o peso. Paraíba e cabeça-chata? É preconceito. Identifique o estado de origem com precisão (paraibano, pernambucano, cearense). Se quiser generalizar, diga nordestino, nortista ou sulista. Só use baiano se a pessoa for realmente da Bahia. Bicha, veado, sapatão, baitola, boiola? Volta pro mar, oferenda! Fique com homossexual, gay, lésbica. Caso se trate do verme, diga lombriga.
Dica: Seja o animal ou homossexual do sexo masculino e pederasta passivo, o correto é veado. Escrever viado está sempre errado, a menos que você queira se referir a um tecido de lã, com riscas ou veios.
Dica 7
Diga chinês, coreano, japonês (não: japa, china, amarelo); idoso (não: velho, decrépito, gagá, pé na cova, senil, titio, vovô); lésbica (não: sapatão, pé 44); pobre, pessoa de baixa renda (não: pobretão, pé de chinelo, ralé, mulambento, raia miúda, povão, escória, gentalha, povaréu, zé-povinho); pessoa com deficiência (não: aleijado, incapacitado, defeituoso, retardado, doente mental, inválido, portador de deficiência, excepcional, deficiente, pessoa com necessidades especiais, pessoa especial, débil); religioso (não: papa-hóstia, igrejeiro, carola, beato, barata de igreja); travesti (não: traveco, boneca, bicha); candidato a concurso, Enem ou vestibular (não: concurseiro, vestibulando, Enemzeiro).
Senil só para os médicos. Velho só para coisas. Todos nós temos necessidades especiais. Ter uma deficiência é uma condição da pessoa, ninguém traz consigo.
Há palavras e palavras. Algumas informam. Outras emocionam. Há as que mobilizam para a ação. Todas têm hora e vez. Cuidado especial merecem as que ofendem ou reforçam preconceitos. Grupos organizados – movimento negro, movimento gay, movimento feminista – estão atentos aos vocábulos politicamente incorretos. Recomenda-se cuidado para não ofender nem agredir o leitor ou o ouvinte.
Mas não exagere. Cabeleireiro é cabeleireiro, não hair stylist. Costureira é costureira, não estilista de moda (outra especialidade). Manicure é manicure, não esteticista de unhas. Empregada doméstica é empregada doméstica, não secretária do lar. Dona de casa é dona de casa, não do lar ou especialista em prendas domésticas. Cego é cego, mudo é mudo, surdo é surdo, surdo-mudo é surdo-mudo. Deficiente visual não significa necessariamente cego. Deficiente auditivo não significa necessariamente surdo. Pessoa com deficiência nem sempre tem a precisão desses termos. Quando necessário, use-os sem constrangimento.
Comentários
Postar um comentário