Viagem à Gramática - Vila Fonética
"Rakel atrazará oje",
dizia o cartaz na porta do Cartório da Fonética.
"Que estranho!", pensou Tomás Nota. "A frase toda está escrita de um modo errado, mas o som das palavras é igual ao certo!"
Realmente o cartaz tem muitos erros, mas muita gente comete este tipo de engano: escrever as palavras do jeito como se escuta.
Isso acontece porque muitos desconhecem a diferença entre letras e fonemas.
Quando você aprendeu a ler e a escrever, a professora lhe ensinou que as palavras são formadas por letras. A + z + u + l = azul.
E antes de aprender a escrever, do que eram formadas as palavras? De sons! E como é formado o som de "azul"?
Experimento 1
Fale "azul" beeeeeeeem devagarinho. Como se você estivesse com muito sono.
Tem o som do "aaaaaa", o som do "zzzzzzzzzz", do "uuuuuuuu" e do "llllllll".
Cada som de uma palavra é um fonema.
A letra é a representação do som na hora de escrever.
Mas espere aí! Isso não é tudo!
Experimento 2
Repita o experimento 1, agora com a frase "Raquel atrasará hoje". (Lembre-se de falar com sono.)
"Raquel" não tem som de "Rakel"?
É porque as letras "q" e "u", quando vêm juntas e antes de "e" ou "i", ficam com som de "k".
Mas naum é pur isso ki a genti vai sair iscrevendo errado, naum é?
Em "atrasará", repare que o "s" tem o mesmo som que o "z" de "azul".
Na palavra "hoje", temos quatro letras, mas só três sons (fonemas). É porque o "h", no começo da palavra, não tem som.
Fonema = som
Letra = representação gráfica
Portanto, fonema é diferente de letra.
As luzes se apagaram, e todos seguraram firme no balde de pipocas; o filme ia começar.
Mas não começou! E continuou escuro...
Lá na frente, um pessoal ficou chateado, e abriu bem a boca para dizer:
- Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa...
Aí todos fizeram biquinho e deram uma grande vaia:
- Uuuuuuuuuuuuuuuuuuu...
Tomás Nota começou a ficar irritado com as pessoas do cinema.
- Que droga! Vocês só sabem usar vogais? Existem consoantes também!
Realmente, o simpático bloquinho de notas está certo. Mas ele não sabe de uma coisa: além de consoantes e vogais, existem as semivogais.
Os fonemas podem ser classificados em vogais, semivogais e consoantes.
Você não sabe o que é fonema? Os fonemas são os sons que formam as palavras. A gente escreve com letras, mas fala com fonemas.
Por exemplo, para falar uma vogal ou uma semivogal, deixamos o ar sair livremente pela boca.
Você quer experimentar pra ver como é? Então, prepare-se!
udo pronto para começar a experiência? Então abra bem a boca:
EXPERIMENTO ALFA: a e i o u...
Perceba agora a diferença entre vogais e semivogais.
EXPERIMENTO BETA: Pronuncie separadamente as palavras "pai e "aí":
- Pai!
- Aí!
A pronúncia é diferente. Em "pai" a gente fala o "a" bem forte e o "i" fraquinho.
Então, nesse caso "a" é vogal, e o "i" é semivogal.
Já em "aí", o "i" é tão forte quanto o "a". Os dois são vogais.
Vogais têm som forte, semivogais têm som fraco.
- Mãe!
Quantas vezes você fala a palavra "mãe" por dia? Note agora que o "a" de mãe é diferente do "a" de pai...
No "a" de mãe a gente também usa o nariz para falar.
EXPERIMENTO GAMA: Coloque o dedo no nariz. Quer dizer, em cima, não dentro. Agora diga "pai". Não aconteceu nada, não é? (Nem seu pai atendeu)
Agora diga "mãe". Sentiu uma vibração? É porque usamos o nariz para ajudar a falar algumas vogais, como em comunhão, vem e esperam, e em outras só usamos a boca, como em chapéu e enfeite.
As vogais podem ser orais ou nasais.
EXPERIMENTO DELTA: Abra bem a boca. Diga "a", com a boca aberta, como no dentista.
Está se achando meio bobo?
Não ligue. Pronuncie a palavra "cavalo".
Reparou que os "aa" dessa palavra são ditos com a boca bem aberta? No entanto, o "o" saiu meio fechado.
Existem vogais abertas e fechadas.
- A-tchim!
Um grande espirro na porta da Farmácia da Tonicidade.
- Você pode me ajudar? - perguntou Tomás Nota, meio gripado, ao atendente da farmácia.
O atendente se apressou em lhe dizer:
- Sim, é claro. A sílaba tônica de "atchim" é "tchim". Foi a que você pronunciou com mais força.
- Você não entendeu - o bloquinho tentou explicar. - Eu estou falando de remédio.
- Re-mé-dio? - soletrou o atendente. - O "mé" é claramente a sílaba mais forte. Sílaba tônica.
Quem não estava entendendo nada era o Tomás Nota.
- Sílaba o quê?
- Tô-ni-ca. Nessa palavra, por exemplo, a gente fala "tô" com mais força que as outras sílabas...
As sílabas não são todas iguais. Em cada palavra, há sempre uma que a gente pronuncia com mais força.
Em "a-tchim", a sílaba mais forte é a última. Por isso, a palavra é chamada de OXíTONA. Quando a mais forte é a penúltima, como em 'mesa', temos uma PAROXíTONA. E se a sílaba tônica é a antepenúltima, como em 'médico', a palavra é PROPAROXíTONA.
Tudo bem até aí, mas como ficam as palavras de uma sílaba só, os famosos monossílabos?
EXPERIMENTO X: Diga "Este é o pé que está doendo". Observe as palavras "pé" e "que".
As duas são monossílabas. Mas soam de modo diferente, não é? "Pé" tem som forte e "que" tem pronúncia suave.
Existem os MONOSSÍLABOS TÔNICOS (fortes) e os MONOSSÍLABOS ÁTONOS (fracos).
São monossílabos tônicos: pé, chá, sol, entre outros.
Em, o, que são exemplos de monossílabos átonos.
Todos os dias as letras se encontravam na sorveteria. Era uma verdadeira folia de vogais, semivogais e consoantes.
- Quais sabores?
- Baunilha... cupuaçu...
- Três de creme!
"Engraçado", filosofava Tomás, "as letras não se misturam totalmente". E continuou o pensamento, vendo-as pedirem seus sorvetes. "Às vezes eles andam em duplas e trios de vogais e semivogais, e o mesmo acontece com as consoantes". E repetiu:
Baunilha (au = vogal + semivogal)
Cupuaçu (ua = vogal + vogal)
Quais (uai = semivogal + vogal + semivogal)
Três (tr= consoante + consoante)
Creme (cr = consoante + consoante)
Anjo Aurélio dá a dica:
"Lembre que vogal tem som forte,
e a semivogal tem som fraco".
Então, por divertimento, Tomás Nota começou a inventar estranhos apelidos para esses encontros:
- Quando uma vogal e uma semivogal (ou vice-versa) se juntam, o encontro se chama DITONGO.
- Duas vogais na mesma palavra, uma do ladinho da outra, acontece o HIATO.
- Se aparecerem uma vogal entre duas semivogais, o grupo vai se chamar TRITONGO.
E por falta de um nome estranho, chamou o encontro de duas consoantes de ENCONTRO CONSONANTAL.
Exemplos
DITONGO (vogal + semivogal ou semivogal + vogal): caule, aipim, cadeira.
TRITONGO (semivogal + vogal + semivogal): Paraguai, saguão, quais.
HIATOS (vogal + vogal): cupuaçu, raízes.
ENCONTROS CONSONANTAIS (consoante + consoante): caboclo, planalto, três.
Quando Tomás Nota foi ligar para um amigo na Telefônica, tomou um susto. Estava lotada de letras!
Elas estavam meio chateadas. Cada letra percebeu que, sozinha, não podia dizer nada que prestasse.
Mas, como gostavam de estar juntas, formaram vários grupos, chamados de palavras:
Quem
Alô
Está
É
Aqui
O
Falando.
Foi realmente uma grande sacada. E as letras perceberam que, para comunicarem uma mensagem que alguém pudesse entender, algumas precisavam entrar em vários grupos. Veja o "a": teve que entrar em várias palavras, senão elas no estariam completas.
Então formaram uma fila: Alô, aqui, quem, está, falando, é, o.
Na hora de entrar na cabine para telefonar, as palavras viram que algumas não cabiam inteiras. Os grupos tiveram que se dividir.
O "alô" teve que se dividir em dois: "a-lô".
O mesmo aconteceu com "aqui": "a-qui".
Foi preciso dividir "falando" em três: "fa-lan-do".
"Quem", "é" e "o" couberam na cabine de uma vez só.
As letras chamaram cada grupinho que entrava na cabine de sílaba.
Assim nasceu a divisão silábica!
De acordo com a divisão em sílabas, classificamos as palavras em:
Monossílabos: com uma sílaba só, como "quem", "é", "o".
Dissílabos: com duas sílabas, como "a-lô", "a-qui".
Trissílabos: com três sílabas, como "fa-lan-do"
Polissílabos: com quatro ou mais sílabas, como "te-le-fo-ne".
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