Jornal Correio da Paraíba - Milenium - 14 de setembro de 2020
Milenium - Paraíba: Segunda-feira, 14 de setembro de 2020 / F1
Brasileiros descobrem família de toxinas usada em guerras bacterianas
Estudo revela como espécies como a Salmonella enterica secretam proteínas tóxicas contra bactérias concorrentes e facilitam a colonização do indivíduo infectado
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) apoiados pela Fapesp caracterizaram uma nova família de toxinas antibacterianas presente em bactérias, entre elas a Salmonella enterica. Nessa espécie, a proteína tóxica é usada para matar outras bactérias da microbiota intestinal e facilitar a colonização do intestino de hospedeiros infectados.
O estudo, publicado na Cell Reports, foi destaque na capa da revista.
O membro fundador da nova família é a proteína Tlde1 (sigla para type VI L,D-transpeptidase effector 1), que ataca precursores da parede celular bacteriana. A molécula é secretada por um sistema denominado T6SS (type VI secretion system). Quando a bactéria-alvo é intoxicada, continua crescendo. Mas como sua parede celular está enfraquecida, acaba morrendo devido a um fenômeno chamado pressão osmótica, que faz com que seu conteúdo extravase.
“Essa família de toxinas possui um mecanismo nunca antes descrito. Enquanto outras toxinas antibacterianas secretadas pelo mesmo sistema destroem a parede celular das bactérias-alvo quando ela já está formada, esta atua nos precursores dessa estrutura, prejudicando a sua formação”, explica Ethel Bayer Santos, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB-USP) e coordenadora do projeto apoiado pela Fapesp.
Em um trabalho anterior, a pesquisadora fez parte de uma equipe que descreveu a existência de outro sistema de secreção (T4SS), desta vez em bactérias oportunistas da espécie Stenotrophomonas maltophilia. O artigo também descreveu uma toxina que inibe o crescimento bacteriano, deixando as células-alvo em estado de dormência. O mecanismo de ação da proteína, porém, ainda não foi desvendado (leia mais em: agencia.fapesp.br/32161).
“As bactérias selecionaram essas toxinas durante a evolução e fazem uso delas há milhares de anos, o que as torna potenciais alvos terapêuticos. Podem, futuramente, dar origem a um composto antibacteriano”, diz a pesquisadora.
Para encontrar a proteína Tlde1, os pesquisadores analisaram o genoma da Salmonella com foco na região próxima aos genes que codificam as proteínas estruturais do sistema de secreção (T6SS). Encontraram um par de genes com características que indicavam serem codificadores de proteínas com ação antagônica: uma tóxica e outra capaz de neutralizar a toxicidade. No genoma das bactérias, as toxinas antibacterianas geralmente estão localizadas próximas a proteínas que conferem imunidade, para evitar que ocorra autointoxicação.
Para testar a função desse par de genes, os pesquisadores, inicialmente, expressaram aquele que suspeitavam ser responsável pela proteína tóxica em uma bactéria suscetível, a Escherichia coli. A bactéria sobreviveu quando o suposto gene tóxico foi expresso no citoplasma, mas morreu quando a expressão ocorreu no periplasma (estrutura entre o citoplasma e a parede celular), indicando que a toxina tinha como alvo alguma estrutura nesse compartimento da célula bacteriana.
Em seguida, foram expressos no periplasma da E. coli não só a proteína tóxica, mas também a provável proteína de imunidade. A coexpressão neutralizou o efeito tóxico e fez a bactéria sobreviver, confirmando que as duas moléculas são, respectivamente, uma toxina e uma proteína de imunidade.
O sistema de secreção de proteínas T6SS é evolutivamente relacionado ao aparato de bacteriófagos (vírus que infectam bactérias). Ele é composto por 13 proteínas estruturais que se organizam em formato de lança, com uma ponta perfurante envolta por uma bainha contrátil. A célula atacante ejeta a lança cheia de proteínas tóxicas por meio dessa bainha em direção à célula-alvo.
Análises de bioinformática revelaram que membros da família Tlde1 existem em diversas espécies bacterianas, e que essa família provavelmente evoluiu de enzimas bacterianas que participam da síntese da parede celular. O próximo passo da pesquisa é tentar entender, com técnicas de biologia estrutural, como uma enzima que tinha essa função passou a fazer o oposto.
A pesquisa teve como primeiras autoras Stephanie Sibinelli-Sousa e Julia Takuno Hespanhol. Sibinelli-Sousa atualmente realiza mestrado no ICB-USP com bolsa da Fapesp.
Os outros coautores foram Gianlucca Gonçalves Nicastro, Robson Francisco de Souza e Cristiane Rodrigues Guzzo Carvalho, do ICB-USP, e Bruno Yasui Matsuyama, do Instituto de Química (IQ) da USP, além de Stephane Mesnage e Ankur Patel, da Universidade de Sheffield, no Reino Unido.
O artigo A Family of T6SS Antibacterial Effectors Related to l,d-Transpeptidases Targets the Peptidoglycan pode ser lido em: www.cell.com/cell-reports/fulltext/S2211-1247(20)30794-4.
F2
Setembro Roxo: conheça a fibrose cística, a “doença do beijo salgado”
Entenda quais são as causas, sintomas e tratamentos desta doença rara que acomete um a cada 10 mil recém-nascidos no país e pode ser diagnosticada pelo teste do pezinho
No Brasil, setembro foi escolhido como o mês de conscientização da fibrose cística. Com a campanha Setembro Roxo, que ocorre todos os anos desde 2014, o Unidos Pela vida – Instituto Brasileiro de Atenção à Fibrose Cística chama a atenção para essa doença rara que acomete uma a cada 10 mil pessoas nascidas no país. A fibrose cística é uma doença genética que não tem cura. Detectada pelo teste do pezinho, não é contagiosa.
Como astrofísica pode transformar o tratamento da fibrose cística
Popularmente, ela é conhecida por “doença do beijo salgado”, por causa de um de seus sintomas, o sabor salgado mais acentuado no suor. Outros sintomas incluem tosse persistente, falta de fôlego, pouco ganho de peso e diarreia. “Quanto antes o paciente receber o diagnóstico, mais rápido pode realizar o tratamento e levar uma vida praticamente normal, dentro dos seus limites”, explicou em um comunicado à imprensa Verônica Stasiak Bednarczuk, diagnosticada com fibrose cística aos 23 anos e diretora geral e fundadora do Unidos pela Vida.
Em 2020, por causa da pandemia de Covid-19, o mote da campanha é “A gente te entende”, em alusão aos cuidados de prevenção ao coronavírus, que também são adotados por quem tem fibrose cística.
“O uso de álcool em gel, máscaras e o isolamento social são há muito tempo grandes aliados das pessoas com a fibrose cística. São cuidados que tomamos desde que recebemos nosso diagnóstico, e que agora, com a pandemia, se tornaram comuns a toda a população”, disse Bednarczuk.
O mês de setembro foi escolhido para a campanha por causa de duas datas. O dia 5 marca o Dia Nacional de Conscientização e Divulgação da doença. Já 8 de setembro é o Dia Mundial da Fibrose Cística, data em que foi publicada na Revista Science a descoberta do gene causador da doença, em 1989. Conheça mais:
Causas
A doença é causada por um defeito no gene responsável pela proteína CFTR. É recessiva, portanto, deve ser herdada tanto do pai quanto da mãe. E acomete homens e mulheres na mesma proporção.
Como age
A proteína CFTR fica na membrana das células epiteliais (que revestem superfícies e secretam substâncias) e é responsável por controlar a passagem do íon cloreto. Assim, a disfunção provoca um acúmulo de cloreto dentro das células que compõem a mucosa e as secreções corporais, tornando-as mais espessas. Isso atinge principalmente as vias respiratórias, o suor e até mesmo o trato digestivo.
Sintomas
Segundo o Ministério da Saúde, os sintomas mais comuns de fibrose cística são: pele/suor com sabor muito salgado; tosse persistente, muitas vezes com catarro; infecções pulmonares frequentes, como pneumonia e bronquite; chiados no peito ou falta de fôlego; baixo crescimento ou pouco ganho de peso, apesar de bom apetite; diarreia; surgimento de pólipos nasais; baqueteamento digital (alongamento e arredondamento na ponta dos dedos).
Diagnóstico
A fibrose cística é diagnosticada a partir do teste do pezinho, e confirmada ou descartada com o teste do suor, que mede os níveis de cloro na secreção. Este exame pode ser feito também em qualquer fase da vida. Outra maneira de diagnosticar a doença é por exames genéticos.
Tratamento
Embora não tenha cura, existe tratamento para a fibrose cística. Ele inclui principalmente fisioterapia respiratória diária, com exercícios para ajudar na expectoração e limpeza do pulmão; atividade física para fortalecimento e aumento da capacidade respiratória; ingestão de medicamentos, como enzimas pancreáticas para absorção de gorduras e nutrientes, antibióticos e polivitamínicos; e inalação com mucolíticos para facilitar a expectoração e limpeza do pulmão.
F3
Plataforma adota ferramenta para ajudar pessoas surdas a buscar emprego
A trampos.co se uniu à Hand Talk para criar uma funcionalidade que traduz textos e imagens para a Língua Brasileira de Sinais
A plataforma trampos.co, utilizada na busca por vagas de emprego no país, junto com a Hand Talk, empresa especializada em acessibilidade digital, para ajudar pessoas surdas a encontrarem oportunidades no mercado de trabalho.
A novidade é a seguinte: o site da trampos.co agora conta com uma funcionalidade da Hand Talk que traduz conteúdos em português e imagens para a Língua Brasileira de Sinais. Assim que o usuário acessar o site, a ferramenta, batizada de Hugo — um "bonequinho" de óculos e gravata azul —, ficará no canto da tela fazendo as traduções.
“Ao longo dos anos, percebemos a existência de uma lacuna entre a acessibilidade e o mercado de trabalho, onde diversos talentos que, mesmo com as habilidades necessárias, não conseguiam se recolocar por falta de canais adequados que auxiliem na ponte da sua visibilidade às empresas contratantes”, explica o especialista em recrutamento e CEO da trampos.co, Tiago Yonamine, em nota à imprensa.
Apesar de existirem esforços para uma sociedade digital cada vez mais inclusiva, apenas 0,74% dos sites brasileiros têm algum nível de acessibilidade para pessoas com deficiência, segundo estudo do Movimento Web para Todos realizado em maio deste ano.
Para engajar empresas e candidatos no tema, pessoas com deficiência e profissionais que trabalham com diversidade e inclusão poderão ter contas prime ativadas na trampos.co, respondendo a algumas perguntas do formulário que ficará disponível no site. Assim, ambos terão prioridade nas buscas das empresas cadastradas quando procurarem por profissionais de tecnologia e comunicação.
F4
Universo pode estar repleto de exoplanetas feitos de diamantes
Estudo de cientistas norte-americanos sugere que, dadas as circunstâncias certas, esse cenário seria possível em planetas compostos majoritariamente de carbono
Alguns dos exoplanetas espalhados pelo Universo podem ser feitos de diamantes e sílica, indica uma nova análise publicada no fim de agosto no The Planetary Science Journal. O estudo, conduzido por cientistas da Universidade Estadual do Arizona e da Universidade de Chicago, ambas nos Estados Unidos, sugerem que, dadas as circunstâncias certas, esse cenário seria possível em astros compostos majoritariamente de carbono.
As estrelas e os planetas de um sistema são formados a partir de uma mesma nuvem de gás, de modo que suas composições são semelhantes, mudando apenas a proporção das substâncias. Uma estrela com uma razão de carbono para oxigênio mais baixa, por exemplo, terá planetas como a Terra, compostos de silicatos e óxidos com pouquíssimo de diamante — por aqui, o conteúdo de diamante é cerca de 0,001%.
Entretanto, quando as estrelas têm uma proporção de carbono para oxigênio mais alta, há uma probabilidade maior dos exoplanetas do sistema serem ricos em carbono. Tendo isso em mente, os cientistas levantaram a hipótese de que, se houvesse água à época de sua formação, esses planetas seriam ricos em diamantes.
Para testar a hipótese, os cientistas precisaram imitar o interior de exoplanetas de carboneto usando muito calor e alta pressão. Para isso, eles imergiram carboneto de silício em água e comprimiram a amostra entre bigornas de diamante a uma pressão muito alta e depois aqueceram o material com lasers.
Para monitorar o procedimento, os estudiosos realizaram medições de raios-X enquanto o laser aquecia as amostras em alta pressão. O resultado, como relatam os estudiosos, foi de acordo com o previsto: o carboneto de silício reagiu com a água e se transformou em diamante e sílica.
F5
Baiano é 1º brasileiro a vencer concurso internacional de foto da Sony
Com o ensaio “Afrocentrípeta”, o fotógrafo Matheus Leite buscou retratar a simbiose e metamorfose intrarraciais ocorridas no Brasil pelo tráfico negreiro
O baiano Matheus Leite demorou até se apaixonar por fotografia e fazer disso sua profissão. Na verdade, o primeiro brasileiro a vencer o prêmio National Awards, do Sony World Photography Awards, detestou fotos por pelo menos um terço de sua vida. “Não tenho nenhum registro dos meus 10 aos 21 anos, não sei se era algo a ver com minha autoestima, mas é uma marca que carrego comigo”, diz o fotógrafo, que é mais conhecido como Matheus L8. “Entre amigos e familiares, é até piada eu ter virado fotógrafo.”
A relação com a fotografia mudou aos 21 anos, após a morte do pai, vítima de um aneurisma. “Não ter nenhuma foto com meu pai é algo muito dolorido”, lembra Matheus que, aos 29 anos, ainda tem dificuldade de falar sobre o assunto. Aos poucos, começou a se deixar ser fotografado na companhia de parentes e amigos. Como alguns deles eram fotógrafos, sentiu curiosidade também em mexer nos equipamentos e aprender a técnica por trás das imagens.
"Há uma força que que nos leva para o centro: o descompasso que o contato com o outro traz e a busca pela harmonia entre distintos" (Foto: Matheus L8)
Na época, cursava licenciatura em História na Universidade Federal da Bahia (UFBA), mas nunca chegou a concluir, pois começou a trabalhar tirando fotos em eventos. “A fotografia virou meu refúgio financeiro e artístico, um modo de colocar as coisas para fora”, conta. Mas não demorou até que se transformasse também em paixão. “Me apaixonei quando vi que poderia fazer das imagens uma linguagem, passível de ser instrumentalizada para levantar questões que acho relevante”, diz.
"Durante três séculos da história do Brasil, o tráfico negreiro provocou o encontro de povos africanos de diferentes reinos, culturas e nações no mesmo espaço" (Foto: Matheus L8)
Embora o ganha-pão esteja em eventos, fotos publicitárias e vídeos, Matheus não abre mão dos projetos pessoais. “Gosto mesmo é de colocar gente na frente da câmera, dando a elas uma perspectiva que não costuma ser dada por questões variadas, sejam raciais, sociais ou de classe”, explica. “Procuro colocar as pessoas em um lugar onde não era comum e provocar algo em quem está vendo.”
"Pensando a partir de uma perspectiva intrarracial, essa convivência entre esses povos foi costurada a partir de fusões, rupturas e permanências. E assim foi sendo gerado o embrião da identidade afro-brasileira" (Foto: Matheus L8)
Seu trabalho premiado, escolhido entre mais de 190 mil imagens inscritas, foi justamente de um desses projetos. Com o ensaio Afrocentrípeta — feito nas Dunas de Diogo, no litoral norte da Bahia —, Matheus buscou retratar a simbiose e metamorfose intrarraciais ocorridas no Brasil durante os séculos em que o tráfico negreiro provocou o encontro de povos africanos de diferentes reinos, culturas e nações. “Sempre me incomodou muito o fato de ver todo mundo no mesmo envelope ‘africano’, quando na verdade a África tem mais de 50 países”, pontua. “Queria questionar essa homogeneidade dada pelo senso comum, mostrando as fissuras e as diferentes perspectivas intrarraciais.”
"Foi sobrevivendo à perversa conjuntura escravocrata que esses povos se encontraram e construíram entre si laços, experiências compartilhadas e uma identidade comum" (Foto: Matheus L8)
Para o fotógrafo, “Afrocentrípeta” é ainda mais especial porque foi seu primeiro ensaio narrativo, do qual participaram pessoas de seu próprio círculo de amigos. “Achei muito bacana que todos toparam, porque era algo que envolvia se deslocar, não era simples”, lembra. “Ver que havia pessoas acreditando no meu projeto me trouxe muita confiança.”
"Esse trabalho pretende retratar, de forma simbólica, a simbiose e metamorfose intrarracial que aqui ocorreu" (Foto: Matheus L8)
A surpresa ao vencer o concurso foi grande. Sem nunca ter recebido uma educação formal em fotografia, Matheus sempre buscou inspiração principalmente em imagens premiadas, para observar as questões técnicas. “Há quatro anos eu acompanhava o site do concurso, foi minha primeira referência para buscar inspiração de fotógrafos mundo afora, mas eu nunca tinha me inscrito, porque achava que era um outro patamar”, relata. “Me inscrevi meio de gaiato, nem falo inglês, fiquei muito surpreso e honrado em vencer.”
Entre os prêmios, Matheus terá o trabalho exibido na exposição Sony World Photography Awards, no palácio Somerset House, em Londres, programada para iniciar no fim de 2020.
Os astrofísicos explicam que, se realmente existirem, esses corpos celestes provavelmente não são habitáveis, pois é raro que planetas ricos em carbono sejam geologicamente ativos. Isso porque essa inatividade torna a composição da atmosfera inabitável, inviabilizando a vida como a conhecemos.
"Independentemente da habitabilidade, essa [pesquisa] é uma etapa adicional para nos ajudar a compreender e caracterizar as observações cada vez maiores e aprimoradas de exoplanetas", disse Harrison Allen-Sutter, coautor do estudo, em comunicado. "Quanto mais aprendemos, melhor seremos capazes de interpretar novos dados de missões futuras (...) para entender os mundos além do nosso próprio Sistema Solar."
Irmãos Rebouças: quem foram os primeiros engenheiros negros do Brasil
Influente na Corte Imperial, a dupla fez importantes obras no Paraná e no Rio de Janeiro, além de ter traçado uma trajetória de luta abolicionista. Conheça algumas de suas obras mais famosas
Homenageados com nomes de avenida, túnel e até um bairro inteiro, os irmãos Antônio e André Rebouças não só foram os primeiros engenheiros negros do Brasil, mas estiveram entre os mais importantes do país na segunda metade do século 19. Contribuíram com o desenvolvimento do então recém-separado estado do Paraná e projetaram importantes obras no Rio de Janeiro. Também lutaram pela abolição da escravidão — principalmente André, que participou de campanhas e manifestações.
Ambos nasceram em Cachoeira (BA), com apenas um ano de diferença: André em 1838 e Antônio em 1839. Eram netos de uma escrava alforriada e um alfaiate português. O pai, que também se chamava Antônio, era um advogado autodidata, deputado e conselheiro de Dom Pedro II. Em 1854, os irmãos ingressaram juntos no curso de engenharia da Escola Militar, no Rio de Janeiro. Sete anos depois, embarcaram para a Europa, onde se especializaram em construção de portos e ferrovias. De volta ao Brasil em 1862, foram contratados pelo Império para supervisionar obras em fortificações de Santos (SP), Paranaguá (PR) e Santa Catarina.
Antônio morreu em 1874, aos 35 anos, vítima de febre tifóide. Não viu seu principal projeto ficar pronto, a Ferrovia Curitiba-Paranaguá, que só foi concluída em 1885. Já André serviu na Guerra do Paraguai e, após a morte do irmão, passou a morar no Rio de Janeiro, onde exerceu um papel ativo na militância abolicionista. Fiel ao Imperador, mudou-se com a Corte para a Europa após a Proclamação da República. Morou em Funchal, na Ilha da Madeira, até o final da vida, quando foi encontrado morto num rochedo à beira do mar, aos 60 anos de idade.
Por suas importantes obras, foram homenageados com o Túnel Rebouças, que liga a zona sul à zona norte no Rio de Janeiro; a Avenida Rebouças, uma das principais da cidade de São Paulo; e o bairro Rebouças, que se desenvolveu ao redor da Estação de Trem projetada por eles em Curitiba.
Conheça mais alguns dos principais trabalhos dos Irmãos Rebouças:
Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá
Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá passa pela Serra do Mar no Paraná (Foto: Simone Balster/Wikimedia Commons)
Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá passa pela Serra do Mar no Paraná (Foto: Simone Balster/Wikimedia Commons)
A ferrovia de 110 quilômetros que liga a capital paranaense ao porto de Paranaguá é considerada uma impressionante obra de engenharia até os dias de hoje. A estrada de ferro corta o terreno acidentado da Serra do Mar, passando por 14 túneis. A obra iniciou em 1872 e terminou em 1885, e até hoje é utilizada para escoar a produção não só do Paraná, mas também da região Centro-Oeste do Brasil.
Plano de abastecimento de água do Rio de Janeiro
A capital do Império vivia um problema crônico de seca. Com frequência, faltava água na cidade. A solução para o problema foi formulada por André Rebouças. Em um relatório publicado em um revista de engenharia em 1870, o engenheiro propôs que se transportasse água do manancial do Rio D’Ouro para a capital, descendo a Serra do Tinguá em uma tubulação de 55 quilômetros de extensão. O estudo deu origem ao Sistema Acari, que teve sua primeira linha concluída em 1877.
Docas da Alfândega e Doca Dom Pedro II
O porto do Rio de Janeiro era um amontoado de unidades independentes espalhadas sem planejamento. A situação começou a mudar quando André Rebouças assumiu a direção de obras e implantou as Docas da Alfândega e a Doca Dom Pedro, em 1871. Os projetos ganharam uma dimensão ainda mais importante porque Rebouças proibiu a utilização de mão-de-obra escrava para as construções. Em maio de 2012, durante as obras de revitalização da Zona Portuária do Rio de Janeiro, arqueólogos encontraram nas escavações a pedra fundamental da Doca Dom Pedro II, lavrada por André Rebouças em 15 de setembro de 1871.
Estrada da Graciosa
Com menos de 28,5 quilômetros de extensão, a Estrada da Graciosa era uma antiga rota de tropeiros que ligava Curitiba às cidades de Antonina e Morretes, no litoral paranaense. Em 1864, Antônio Rebouças foi nomeado engenheiro-chefe responsável pelo projeto de construção e pavimentação da rota, que ajudaria a escoar a produção. Concluída em 1873, a Estrada da Graciosa foi até a metade do século 20 a única totalmente pavimentada no Paraná. Hoje, é um dos principais locais turísticos do estado.
Terremoto pode ter destruído palácio em Israel há 3,7 mil anos
Segundo uma nova investigação em Tel Kabri, no norte do país, não há evidências de que o local foi abandonado por alguma guerra ou incêndio
Após uma nova investigação, pesquisadores israelenses e norte-americanos descobriram novas evidências de que um terremoto pode ter causado a destruição e o abandono de um próspero sítio palaciano ao norte de Israel há 3.700 anos. O estudo foi compartilhado pela equipe na sexta-feira (11) no PLOS One.
O grupo fez a descoberta em um sítio arqueológico conhecido como Tel Kabri, que contém as ruínas de um palácio cananeu e uma cidade datada de entre 1900 a.C. e 1700 a.C. "Nós nos perguntamos por vários anos o que causou a repentina destruição e abandono do palácio e do local, após séculos de ocupação florescente", disse Assaf Yasur-Landau, coautor do estudo, em comunicado.
Reconhecer os sinais de terremotos que ocorreram no passado por registros arqueológicos pode ser extremamente desafiador, especialmente em locais onde não há muita alvenaria de pedra e foram usados materiais de construção degradáveis, como tijolos de barro e madeira. Em Tel Kabri, no entanto, a equipe encontrou fundações de pedra na parte inferior das paredes e superestruturas de tijolos de barro acima.
"Nossos estudos mostram a importância de combinar métodos macro e microarqueológicos para a identificação de terremotos antigos", afirmou Michael Lazar, líder da pesquisa. "Também precisávamos avaliar cenários alternativos [para o abandono da região], incluindo colapso climático, ambiental e econômico, além de [uma possível] guerra, antes de estarmos confiantes para propor um cenário de evento sísmico."
Os pesquisadores encontraram áreas onde o piso de gesso parecia deformado, as paredes estavam inclinadas ou foram deslocadas e os tijolos de barro das paredes e teto desabaram. Segundo os estudiosos, não haviam evidências de atividade humana violenta, como marcas causadas por armas ou sinais de incêndio. "Realmente parece que a terra simplesmente se abriu e tudo ao seu lado caiu", observou o coautor Eric Cline.
Em 2013, escavações no local levaram à descoberta de 40 jarros de vinho em um único depósito do palácio — o que, à época, colocava aquela como a mais antiga adega já encontrada no Oriente Próximo. Desde então, a equipe encontrou mais quatro dessas salas de armazenamento e pelo menos mais 70 jarros, todos soterrados pelos destroços do desabamento do prédio.
"Os destroços implicam em um colapso rápido em vez de um acúmulo lento dos tijolos das paredes ou do teto de uma estrutura abandonada", explicou Ruth Shahack-Gross, que também participou do estudo. "O rápido colapso e o rápido sepultamento, combinados com a localização geológica de Tel Kabri, aumentam a possibilidade de que um ou mais terremotos podem ter destruído as paredes e o teto do palácio sem incendiá-lo."
F6
Brasil é 2º maior comprador de agrotóxicos proibidos pela União Europeia
Prática traz lucro para multinacionais e transfere riscos de saúde para trabalhadores e meio ambiente brasileiros
Dados inéditos revelam que o Brasil é o segundo maior comprador de agrotóxicos fabricados em solo europeu, mas proibidos para uso na União Europeia e Inglaterra. A prática já era conhecida, mas pela primeira vez se revela a importância do Brasil neste mercado. Foram 10 mil toneladas em 2018, e 12 mil em 2019. Mais da metade (77%) saiu da fábrica da Syngenta na Inglaterra, onde a empresa produz o agrotóxico paraquate.
O bloco autoriza a exportação de agrotóxicos que considera perigosos demais para aplicação na sua agricultura, mas tolera a importação de alimentos cultivados com estes produtos em outros continentes. “É o ciclo do veneno. Sabemos que esses agrotóxicos são perigosos, mas os vendemos e externalizamos os impactos de nosso próprio consumo. Enquanto isso, camponeses, indígenas e pessoas que vivem próximas ao campo sofrem no Brasil”, diz Laurent Gaberell, um dos autores do levantamento. Ele é pesquisador da Public Eye, organização suíça que monitora o comportamento de empresas do país. Os dados sobre venda de agrotóxicos foram obtidos pela organização em parceria com a Unearthed, braço de jornalismo investigativo do Greenpeace (veja dados completos em inglês).
A prática foi classificada como “discriminatória” e “uma contradição legislativa” por Baskut Tuncak, que foi relator especial da ONU para substâncias tóxicas de 2014 a julho de 2020. “A União Europeia não tolera esses agrotóxicos em seu território, mas, fora da União Europeia, diz que não é problema seu”, afirma Tuncak em entrevista à Repórter Brasil e à Agência Pública. Segundo o relator, essa situação só é permitida graças a “brechas legais” criadas para atender à indústria de agrotóxicos, que “segue violando direitos humanos fora da Europa”.
Apenas em 2018, foram mais de 81 mil toneladas autorizadas para fabricação na União Europeia e Inglaterra e venda a 85 países que não fazem parte do bloco. Os dados são de autorizações para exportação, por isso é possível que o volume efetivamente vendido seja menor.
São 41 tipos diferentes de agrotóxicos proibidos dentro do bloco europeu, mas autorizados para fabricação e exportação. Dentre os motivos que levaram a União Europeia a proibi-los estão evidências sobre sua relação com infertilidade, malformações de bebês, câncer, contaminação da água e toxicidade para animais, como as abelhas.
A Public Eye e o Unearthed usaram leis de acesso à informação para obter dados da Agência Europeia de Produtos Químicos e de órgãos do Reino Unido, Alemanha, Bélgica e França, onde ficam algumas das maiores fábricas de grandes produtoras, como Bayer, Syngenta e Basf.
“As empresas ficavam escondidas atrás do escudo da confidencialidade comercial. Pela primeira vez conseguimos acessar todas essa informações sobre 41 agrotóxicos”, afirma Gaberell, da Public Eye.
O apetite do mercado brasileiro para esses produtos fica atrás apenas dos Estados Unidos, que foi o campeão de compras. Mesmo com a relevância do mercado americano, o grosso das exportações é para “países mais pobres, onde acredita-se que esses agroquímicos danosos trazem maiores riscos”, afirma o relatório. Entre os maiores compradores estão Ucrânia, México e África do Sul.
“O que causa má formação genética na Europa também causa na Malásia. O que mata abelhas na Europa mata abelhas no Brasil ou na África do Sul. Mas as condições para aplicar a lei e controlar o uso são mais fracas nos países mais pobres”, diz Gaberell.
Ele lembra que o Brasil, a África do Sul e a Índia autorizam a pulverização aérea, algo que é proibido na União Europeia, ocorrendo apenas em situações específicas. Quando são aviões que despejam o químico, uma grande parte fica à deriva e pode alcançar rios e comunidades rurais no entorno da plantação.
Exportando os riscos
Os novos dados mostram que dentre os principais compradores de agrotóxicos proibidos na União Europeia estão os principais vendedores de alimentos para o bloco econômico: Estados Unidos, Brasil e Ucrânia. Ou seja, empresas europeias lucram vendendo agrotóxicos perigosos para que o seu alimento seja cultivado em outros continentes.
Isso ocorre porque o uso dos químicos em questão foram banidos por oferecerem risco aos trabalhadores rurais e ao meio ambiente. Mas, quando se trata de resíduos nos alimentos, o bloco fixa limites que são tolerados na comida importada.
Não são poucos os casos de alimentos brasileiros com agrotóxicos proibidos na Europa que chegam a mercados europeus. A ONG Pesticide Action Network analisou testes feitos em 770 frutas, legumes e grãos vendidos pelo Brasil à Europa em 2018. Desses, 97 tinham agrotóxicos proibidos ou de uso restrito na União Europeia.
De um total de 31 amostras de maçãs que vieram do Brasil e foram testadas, 24 tinham resíduos de agrotóxicos proibidos ou de uso restrito na Europa. Quantidades significativas também foram encontradas em outras frutas, como o mamão, a manga e o limão (veja a arte).
A análise da PAN ressalta que foram poucos os alimentos testados do Brasil, por isso, os resultados não representam todos os alimentos importados do país. “Mas os dados não deixam dúvidas de que a União Européia está comprando produtos proibidos para uso em seu território. Isso é hipocrisia”, afirma a toxicologista Angeliki Lyssimachou, uma das pesquisadoras que está trabalhando com os dados na PAN.
Este levantamento faz parte de um grande compilado realizado pela PAN, cuja equipe se debruçou sobre os testes toxicológicos realizados pelos países da União Europeia com amostras de alimentos coletados em mercados.
Carbendazim: a nova polêmica no Brasil
O agrotóxico proibido na União Europeia que mais apareceu nos alimentos brasileiros disponíveis nos mercados europeus foi o carbendazim. Ele estava em 64 dos 770 alimentos testados. Principalmente nas frutas: estava presente em 24 de 30 amostras de maçã, 19 de 112 amostras de mamão e 13 de 103 das de manga.
O carbendazim foi banido na Europa porque pode causar defeitos genéticos, prejudicar a fertilidade e o feto, além de ser muito tóxico para a vida aquática.
No Brasil, ele foi o produto mais encontrado na comida segundo testes realizados pela Anvisa entre 2013 e 2015 dentro Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos. E o terceiro mais detectado entre 2017 e 2018. Nesta última, apareceu em 51% amostras de pimentão, 24% das de abacaxi e 18% das de manga.
Ele é utilizado no cultivo de laranja, limão, maçã, feijão, soja e trigo. Segundo o Ibama, 4,8 mil toneladas do produto foram compradas em 2018. Não há dados sobre a exportação deste produto da Europa para o Brasil em 2018 ou 2019, apenas da Europa para outros países.
O carbendazim é utilizado no cultivo de laranja, limão e maçã. De acordo com o Ibama, 4,8 toneladas do pesticida foi comprado em 2018
O carbendazim promete ser a nova polêmica da vez no Brasil porque entrou em reavaliação, o que significa que pode ser proibido ou ter sua autorização renovada. A reportagem falou com advogados que trabalham na constituição do que será a “Força-Tarefa Carbendazin”, grupo formado pelas empresas fabricantes para defender a permanência do agrotóxico no mercado brasileiro.
No Brasil, 25 empresas detêm o registro de 102 produtos contendo este agrotóxico, dentre elas a Adama (empresa do mesmo grupo da Syngenta), a Bayer e a Nortox, maior fabricante brasileira de agrotóxicos.
Procurada pela reportagem, a Bayer afirmou que vai parar de vender carbendazim em todo o mundo até o final do ano (nota completa da Bayer). A Nortox não respondeu até o fechamento desta matéria.
Campeão de exportação na Europa e de mortes no Brasil
O produto proibido na Europa que mais teve autorizações para exportação para todo o mundo é um dos agrotóxicos com maior impacto no Brasil: o paraquate. Foram 32 mil toneladas, ou 40% do total das exportações da União Europeia de agrotóxicos proibidos em 2018. Também foi, de longe, o mais exportado para o Brasil: 9 mil toneladas autorizadas em 2018.
Este mesmo produto foi o agrotóxico autorizado no Brasil que mais tirou a vida de brasileiros na última década, segundo dados do Ministério da Saúde revelados pela Repórter Brasil e Agência Pública.
De acordo com o Ibama, foram vendidos no Brasil 13 mil toneladas em 2018. Ou seja, a produção da Syngenta que saiu da Inglaterra e veio para o Brasil correspondeu a 68% das compras deste químico no país.
Procurada pela reportagem, a assessoria de comunicação da empresa afirmou que não responderia às perguntas enviadas.
O paraquate foi proibido em 2007 na União Europeia, depois que pesquisas indicaram que a exposição ao agrotóxico está associada à doença de Parkinson. Embora proíba seu uso, a União Europeia permite a importação de arroz com até 0,5 miligramas de paraquate por quilo. Nos outros alimentos, o limite fixado é o mínimo que a tecnologia consegue detectar.
Devido aos riscos à saúde humana, o paraquate tem a mais alta classificação toxicológica no Brasil e está prestes a ser banido, com data final para proibição marcada para o próximo dia 22. Mas, depois de intenso lobby das fabricantes e dos produtores de soja, o órgão regulador passou a rediscutir a proibição, abrindo a possibilidade de que novos estudos sejam apresentados.
Em julho, a Repórter Brasil e a Agência Pública revelaram o lobby da chamada “Força-Tarefa Paraquate” para impedir o banimento. O principal argumento são duas pesquisas que, em tese, poderiam provar que a substância é segura, mas que não ficarão prontas antes da data para a proibição.
Após a reportagem revelar os conflitos de interesses envolvendo um dos estudos que estava sendo feito em laboratório da Unicamp, o Comitê de Ética da universidade suspendeu a autorização da pesquisa. Este estudo foi financiado pela Associação Brasileira de Produtores de Soja (Aprosoja) e, embora suspenso pela Unicamp, continua sendo citado pela associação em defesa do produto em reuniões da Anvisa.
A revisão do paraquate chegou a ser proibida pela Justiça, mas a Anvisa ganhou recurso e voltou a incluí-la na pauta da diretoria colegiada. A próxima reunião que pode decidir o assunto será nesta quarta-feira (15).
A discussão mobiliza organizações de diversas esferas. A Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida reuniu mais de 200 assinaturas de organizações, deputados e até de universidades pedindo que a Anvisa mantenha a proibição do paraquate.
Mais riscos
Além do paraquate, há outros cinco agrotóxicos que são proibidos na Europa e que tiveram a fabricação na Europa para venda no Brasil autorizada em 2018. O propargite, produzido pela Arysta (empresa de propriedade de um conglomerado indiano que tem fábricas na Europa) foi proibido na União Europeia em 2011 por ser considerado extremamente tóxico quando inalado, tóxico para a vida aquática, ter potencial de causar sérios danos aos olhos, além de haver indícios de que causa câncer. Em 2018, foram autorizadas vendas de 600 toneladas do produto para o Brasil. Em 2019, 608 toneladas.
A cianamida, produzido pela alemã Alzchem, é um regulador de crescimento vegetal que foi proibido em 2008. Em contato com a pele, causa queimaduras severas, danos aos olhos, e há indícios de que causa câncer. Além de prejudicar a fertilidade e o feto, provoca danos aos órgãos internos com a exposição prolongada, e também é danoso à vida aquática. Em 2018, foram autorizadas vendas de 460 toneladas do produto.
“Ele foi proibido na União Europeia porque as autoridades concluíram que é impossível proteger-se durante sua aplicação, mesmo usando luvas, máscaras e outros equipamentos”, afirma o toxicologista Peter Clausing, membro da seção alemã da PAN (Rede de Ação Contra Pesticidas).
Há ainda três químicos produzidos pela Bayer e vendidos ao Brasil: o etoxissulfurom, a ciflutrina, e o tiodicarbe.
Questionada sobre a prática das empresas continuarem vendendo produtos proibidos na Europa devido aos riscos à saúde, a CropLife (associação que representa a maiores fabricantes de agrotóxicos do mundo como Bayer e Syngenta), respondeu que respeita as particularidades de cada país. “Cada país tem suas particularidades de solo, clima e pragas, além de seus mecanismos de aprovação, regulamentação e fiscalização de uso de defensivos químicos. Os membros da CropLife Brasil obedecem contextos locais, que são diferentes de uma região para outra, e nem por isso menos rigorosos” (resposta na íntegra).
“É importante ressaltar que os produtos autorizados em outros países não são automaticamente autorizados no Brasil”, afirmou em nota o Sindiveg (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal), que representa também as fabricantes brasileiras como a Nortox e Ourofino Agrociência. O grupo argumenta ainda sobre as diferenças de clima entre os continentes. “O ataque de pragas no Brasil é mais severo por conta das condições climáticas de um país tropical, com temperaturas mais altas e ambiente mais úmido”, diz a nota (leia na íntegra).
As diferenças entre os ambientes também foi ressaltada pelo pesquisador Christopher Portier, ex-diretor do Centro Nacional para Saúde Ambiental e da Agência para Registro de Substâncias Tóxicas e Doenças dos Estados Unidos “Existem diferentes pragas em diferentes partes do mundo. Se um país tem uma praga de gafanhotos que ameaça sua segurança alimentar, pode considerar necessário comprar agrotóxicos que outros países proibiram porque não têm esse tipo de problema”, afirma.
Ele diz, porém, que esse tipo de situação só se aplica em casos excepcionais e que esse argumento “é excessivamente evocado pelas empresas produtoras de agrotóxicos. Um produto como o paraquate provavelmente deveria ser controlado”.
Pressão sobre a Comissão Europeia
Com o lançamento do relatório com os novos dados, a Public Eye pretende mobilizar a opinião pública contra a prática. Em resposta à organização, a Comissão Europeia afirma que a Convenção de Roterdã (da qual Brasil é signatário) traz regras contra a exportação de agrotóxicos proibidos. “A Convenção é construída sob o princípio de que cabe aos países importadores decidirem se querem ou não importar agrotóxicos listados”.
Outro exemplo é a Convenção Bamako, ratificada por 25 países africanos. Com o objetivo de impedir a transferência de lixo tóxico, a convenção barra substâncias proibidas nos países de origem, como os agrotóxicos.
“É a regra de não importar nada que o país exportador não venderia a si mesmo”, afirma Portier. “Os países estão controlando o que querem e protegendo sua própria população”.
No horizonte do Brasil, porém, não há iniciativas neste sentido. Sob o governo Bolsonaro, a Anvisa liberou mais produtos agrotóxicos do que qualquer outro governo. Neste momento, o órgão debate até rever a proibição do paraquate, o produto mais importado da Europa dentro da prática denunciada pelas organizações.
Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto.
Orca que carregou filhote morto por 17 dias dá à luz novamente
Segundo pesquisadores da Universidade de Washington, nos EUA, filhote aparenta ser robusto e precoce, bons indícios de que irá sobreviver
Em 2018, a orca Tahlequah comoveu o mundo ao ser observada carregando seu filhote morto por 17 dias. Nesse período, ela percorreu aproximadamente 1600 quilômetros no Oceano Pacífico, onde vive. Agora, quase dois anos depois, o animal virou notícia novamente por outro motivo.
Neste domingo (6), o Centro de Biologia de Conservação da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, anunciou que a orca deu à luz um filhotinho. A novidade animou os cientistas, pois existem apenas 73 animais do mesmo grupo de Tahlequah que continuam vivos.
"Eu não posso deixar de ficar emocionada por ela ter esse bebê e ele não morrer imediatamente", disse Deborah Giles, uma das pesquisadoras, ao The New York Times. "Todo mundo está preocupado, se perguntando se esse filhote vai sobreviver."
Isso porque, como explicam os pesquisadores, a chance de sobrevivência das orcas filhotes é muito baixa: cerca de 30%. De acordo com um estudo publicado pela instituição em 2017 no Plos One, o estresse causado pela fome devido à falta de salmão, principal alimento das orcas, está relacionado ao baixo sucesso reprodutivo da espécie.
O monitoramento das populações é feito como parte de um estudo de longo prazo da condição corporal do grupo chamado orcas residentes do sul, que está ameaçado de extinção. Fotografias são feitas de forma não invasiva por um drone ativado remotamente, voando a mais de 30 metros sobre os espécimes.
Os especialistas afirmam que o filhote, batizado como J, aparenta ser forte e robusto, um bom indício de que irá sobreviver. "O novo filhote parece saudável e precoce, nadando vigorosamente ao lado da mãe em seu segundo dia de natação livre", escreveram os pesquisadores no Facebook. Outra boa notícia é que mais duas orcas do grupo parecem estar grávidas.
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