Idosa segue tradição da Semana Santa

 Na casa da aposentada Angélica Ribeiro da Silva, de 95 anos, todo mundo tem que seguir à risca às tradições da Semana Santa. Católica fervorosa, ela não toma banho, não pega em dinheiro, nem varre a casa nos dias santos. Lá, na Quinta e Sexta-feira Santa ninguém faz nada, só esta liberado fazer orações.


“Na Semana Santa não tomo banho, não varro casa, não me incomodo com a vida dos vizinhos, vivo da minha maneira. Nasci e me criei vendo meu pai viver a Semana Santa, como santa mesmo, não consentia ninguém jogar, fazer farra, brincar, fazer os afazeres domésticos e mantenho essa rotina até hoje. Essa roupa que estou vou ficar até o final da Sexta-feira Santa”, diz a aposentada.

Minha avó dizia que ninguém podia beber, pescar, jogar futebol nem comemorar aniversário, muito menos ligar TV, computador, celular ou rádio nesse dia. Era proibido ir para loja, restaurante, shopping, comércio, bar, lanchonete, pizzaria, padaria, posto, lotérica, banco, supermercado, cartório ou coisa do gênero nesse dia. Só poderia ir ou para a farmácia ou para a igreja. Fazer simpatia, nem pensar! 

Quem precisar trabalhar ou estudar, deve esperar a segunda, dizia meu tio e meu primo. Não podia pentear os cabelos, lavar roupa, se olhar no espelho, se depilar, fazer barba, viajar, namorar, fazer as unhas, muito menos restaurar o celular. Só rezar terço ou novena.

Minha irmã dizia que não poderia ir para médico, nem para clínica ou para laboratório, nem muito menos para veterinário. O padre da minha paróquia dizia que não se pode ir para festa ou para balada, falar palavra ofensiva, discutir, argumentar ou implicar. Se tiver problema para resolver na justiça, na prefeitura ou no estado, espere a segunda. 


Angélica exige também que seus antigos costumes católicos sejam preservados em casa. O filho José Ramos de Araújo, de 65 anos, aprendeu isso desde pequeno. Então, nesse período dorme em uma cama separada da esposa e também não recebe, cobra ou paga contas.


Ramos vive com a mãe em uma casa na Rua Benjamin Constant, bairro do Colégio, em Cruzeiro do Sul e diz que foi criado na rotina de não tomar banho, não dormir junto com a mulher nos dias santos.



“A partir de quinta, eles só voltavam a dormir juntos no Sábado de Aleluia. Eu ainda mantenho essa tradição, não mantenho relação sexual com minha esposa neste período, dormimos separados. Quando você está doente, você fica dois três dias sem manter relação, então, porque que nos dias sagrados não podemos manter essa tradição?”, justifica Ramos.

Ramos diz que a partir de quinta, só sai de carro, ônibus, táxi ou Uber a partir do Sábado de Aleluia. Se tivesse concurso, Enem, vestibular ou prova da escola, da universidade ou da faculdade, deveria esperar a segunda. É um dia sagrado!

Para muitas pessoas a sexta-feira santa é considerada um dia sagrado, tanto que muitas atividades diárias como tomar banho e limpar a casa não podem ser realizadas neste dia. Um costume popular que ainda é mantido pela aposentada Maria de Lurdes de Sousa, 83 anos, moradora da Zona Norte Teresina. Ao G1, ela contou que a tradição vai além porque também não pega em dinheiro.


Maria de Lurdes, que é natural de São João do Piauí, a 486 Km de Teresina, aprendeu na infância que os católicos fazem penitências durante a sexta–feira santa como uma forma de sacrifício pela morte de Jesus Cristo. Esse jejum pode ser de chocolate, de doces, de refrigerante, de TV, de internet, de sexo, de WhatsApp, de Facebook, de Instagram, de novela, de videogame, de fofoca etc.


“Minha avó tinha este costume de não limpar a casa, não tomar banho, não gritar, não ouvir música alta, não pentear os cabelos, não se olhar no espelho e fazer jejum. Ela passou estes gestos para minha mãe que ensinou seus filhos e eu mantenho até hoje. Eu lavo as mãos e também por trás do pescoço, mas não pego em dinheiro neste dia. O que tiver que comprar, adquiro até a quinta-feira. Também não fico com três moedas de pratas em minhas mãos, pois foi por três moedas de pratas que Judas trocou Jesus. Eu sempre digo: trabalhar nem pensar! Não como carne, fico só a pão, água e remédios”, disse a idosa.


A aposentada lamentou o fato de não ter condições físicas para continuar fazendo o jejum. Segundo ela, o ato de deixar de comer deve ser feito por duas pessoas porque assim cada uma passa a ser a testemunha do sacrifício da outra.


“É um costume católico no sentido de reverenciar a memória de Cristo, de não esquecer o sacrifício vivo dele, que derramou seu sangue por todos nós na cruz para nos salvar dos nossos pecados, mas infelizmente por conta da idade e porque as pessoas não querem mais jejuar, eu tive que deixar de fazer o ato”, disse a idosa.



Maria de Lurdes também tira algumas horas do dia durante a Quaresma para fazer uma oração. Ela caminha por 20 minutos até a residência da comadre onde, há 20 anos, elas rezam o terço e cantam canções de louvor a Jesus Cristo. “Fazemos esta penitência da quarta-feira de Cinzas até o sábado de aleluia”, comentou.


Segundo o padre Nilton Pereira, não há nenhuma recomendação por parte da Igreja Católica para o fato dos fieis deixarem de tomar banho, limpar a casa e não pegar em dinheiro, além de não pagar ou receber contas antes da meia-noite do Sábado de Aleluia. “Nesta época, a espiritualidade é muito forte e neste período as pessoas associam o dinheiro ao fato de Judas ter vendido Jesus. As pessoas têm este costume de não pegar em dinheiro, mas não é bíblico", disse o pároco.


Sobre o jejum, o religioso afirmou que atualmente a Igreja Católica não usa as palavras obrigação e proibição. Ela apenas aconselha a abstinência de carne vermelha como gesto de conversão.


“O jejum foi uma orientação da Igreja porque está entre os seus mandamentos. É uma tradição que surgiu na idade antiga e se consolidou na Idade Média, época em que pessoas humildes raramente provavam carne. Na época, o povo vivia em terras alheias e a carne vermelha era consumida só nas cortes e nas residências dos nobres”, explicou.

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