Língua Pátria - TV Câmara - Programa 92 - Preconceito Linguístico
Preconceito é uma palavra cada vez mais constante no nosso dia a dia. Diariamente ouvimos falar em alguma forma de preconceito, seja ele por questões de gênero, raça, socioeconômicas,etc.
Abordando o preconceito linguístico, devemos ter em mente que se trata de um preconceito da esfera político-social: aquele que fala/escreve segundo as normas cultas da língua, se sente superior ao que fala/escreve sem estar de acordo com essas normas.
Imagem: Reprodução
Indo mais a fundo, Marcos Bagno, professor e autor do Livro “Preconceito Linguístico: o que é, como se faz” (1999), defende que a língua é uma entidade de cunho político, e que falar dela logicamente traz à tona pontos muito políticos, de uma forma ou de outra. Nesse contexto, ele atribui como origem do preconceito linguístico a confusão criada entre língua e gramática normativa.
Assim, a realização desse preconceito se dá quando negamos, principalmente, a variedade da fala presente nos mais variados espaços geográfico e nas diversas classes sociais.
Para este autor, esse fato é ainda mais grave quando exercido por aqueles que estão à frente da educação e do ensino, como professores, linguistas e até mesmo gramáticos, que na maioria das vezes se mostram como os maiores perpetuadores desse preconceito ao tentar impor uma norma culta que não atende e/ou não abarca a todos os falantes da língua.
Bagno desconstrói oito mitos enraizado na cultura brasileira a cerca da língua portuguesa:
1º Mito: A língua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente:
O maior e mais sério dentro os outros mitos, por ser prejudicial à educação e não reconhecer que o português falado é bem diversificado , mesmo a escola tentando impor a norma linguística com se ela fosse de fato comum a todos os brasileiros.
As diferenças de status social em nosso país, explicam a existência do verdadeiro abismo linguístico.
2º Mito: “Brasileiro não sabe português / Só em Portugal se fala bem o português”
“refletem o complexo de inferioridade, o sentimento de sermos até hoje uma colônia de um país mais antigo e “civilizado.”(p.20)
Conclui-se que nenhum dos dois é mais certo ou mais errado, mais bonito ou mais feio: são apenas diferentes um do outro e atendem às necessidades linguísticas das comunidades que os usam, necessidades linguísticas que também são diferentes.
3º Mito: “Português é muito difícil”
Consiste na obrigação que temos de decorar conceitos e fixar regras que perdem seu significado fora da sala de aula.
A regência verbal é o caso típico de como o ensino tradicional da língua portuguesa não leva em conta o uso brasileiro do português.
4º Mito: “As pessoas sem instrução falam tudo errado”
Isso se deve simplesmente a uma questão que não é linguística mas social e política – as pessoas que dizem Cráudia, praca, pranta pertencem a uma classe sócia, desprestigiada, marginalizada, que não tem acesso à educação formal e aos bem culturais da elite, e por isso a língua que elas falam sofre o mesmo preconceito que pesa sobre elas, ou seja, sua língua é considera “feia”, “pobre”, “carente”, quando na verdade é apenas diferente da língua ensinada na escola.
Imagem: Reprodução
5º Mito: “O lugar onde melhor se fala o português no Brasil é no Maranhão”
No Maranhão a população costuma utilizar o pronome TU seguido das formas verbais clássica com a terminação S. (Ex: Tu vai / Tu queres);
Porém no Maranhão também é comum o uso de expressões como: “Esse é um bom livro para ti ler” em vez da forma “correta”: “Esse é um livro para tu leres”.
6º Mito: “O certo é falar assim porque se escreve assim”
Assim como?
TEATRO
– Carioca: Tchi-atru
– Paulista: Tê-atru
– Pernambucano: Té-atru
“E agora? Quem está certo? Ora, todos estão igualmente certos. O que acontece é que em toda comunicação linguística do mundo existe um fenômeno chamado variação, isto é, nenhuma língua é falada do mesmo jeito em todos os lugares, assim como nem todas as pessoas fala a própria língua de modo idêntico o tempo todo” (p.68)
7º Mito: “É preciso saber gramática para falar e escrever bem”
Este mito é um dos mais difundidos. Tão comum é esta afirmação que faz com que cobrança do estudo da gramática seja feita.
Segundo o autor, se esta afirmação fosse verdadeira, todos os gramáticos seriam excelentes escritores, e vice-versa.
8º Mito: “O domínio da norma culta é instrumento de ascensão social”
O autor alega que se o domínio da norma-padrão fosse realmente um instrumento de ascensão na sociedade, os professores de português ocupariam o topo da pirâmide social (p.89)
“O domínio da norma-padrão de nada vai adiantar a uma pessoa que não tenha todos os dentes, que não tem casa decente para morar, água encanada… (p.90)
O círculo vicioso do preconceito linguístico
A Gramática Tradicional inspira a prática de ensino que por sua vez provoca o surgimento da indústria do livro didático, cujos autores recorrem à Gramática Tradicional como fonte de concepções e teorias sobre a língua.
Luta contra o preconceito linguístico – Preconceito linguístico ou preconceito de classe?
O que nós temos que combater é a discriminação, ou seja, quando esse preconceito deixa de ser apenas uma atitude ou um modo de pensar das pessoas e se transforma em práticas sociais.
é preciso reconhecer a existência do preconceito linguístico, conhecer os modos como ele se manifesta concretamente como atitudes e práticas sociais, denunciar isso e criar modos de combatê-lo.
Imagem: Reprodução
Justamente pelo fato de o preconceito linguístico nas sociedades ocidentais ser derivado das práticas escolares, para Bagno, o grande mecanismo para começar a desfazer o preconceito linguístico, a discriminação linguística, está também na pratica escolar: “É muito importante que a escola, em sociedades letradas como a nossa, permita ao aluno esse processo do acesso ao letramento a partir de práticas pedagógicas democratizadoras, em que as variações linguísticas sejam reconhecidas como prática da cultura nacional, que não sejam ridicularizadas.”
“Que a criança, ao chegar na escola falando uma variedade regional menos próxima do padrão, não seja discriminada. Nosso trabalho atualmente se centra muito na escola, nos materiais didáticos e na formação dos professores de português, para que não sejam eles mesmos perpetuadores do preconceito linguístico e da discriminação.”
E continua:
“No caso específico do Brasil, nos últimos oito anos, quase 30 milhões de pessoas saíram da linha da pobreza e com isso vão impor também sua maneira de falar. Outro dado muito importante é que a grande maioria das pessoas que se formam professores (de português, principalmente) vem dessas camadas sociais.
Portanto, o professor que está indo para sala de aula já é falante dessas variedades linguísticas que antigamente eram estigmatizadas. Isso vai provocar um grande movimento de valorização dessas variedades menos prestigiadas.”
Abordando o preconceito linguístico, devemos ter em mente que se trata de um preconceito da esfera político-social: aquele que fala/escreve segundo as normas cultas da língua, se sente superior ao que fala/escreve sem estar de acordo com essas normas.
Imagem: Reprodução
Indo mais a fundo, Marcos Bagno, professor e autor do Livro “Preconceito Linguístico: o que é, como se faz” (1999), defende que a língua é uma entidade de cunho político, e que falar dela logicamente traz à tona pontos muito políticos, de uma forma ou de outra. Nesse contexto, ele atribui como origem do preconceito linguístico a confusão criada entre língua e gramática normativa.
Assim, a realização desse preconceito se dá quando negamos, principalmente, a variedade da fala presente nos mais variados espaços geográfico e nas diversas classes sociais.
Para este autor, esse fato é ainda mais grave quando exercido por aqueles que estão à frente da educação e do ensino, como professores, linguistas e até mesmo gramáticos, que na maioria das vezes se mostram como os maiores perpetuadores desse preconceito ao tentar impor uma norma culta que não atende e/ou não abarca a todos os falantes da língua.
Bagno desconstrói oito mitos enraizado na cultura brasileira a cerca da língua portuguesa:
1º Mito: A língua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente:
O maior e mais sério dentro os outros mitos, por ser prejudicial à educação e não reconhecer que o português falado é bem diversificado , mesmo a escola tentando impor a norma linguística com se ela fosse de fato comum a todos os brasileiros.
As diferenças de status social em nosso país, explicam a existência do verdadeiro abismo linguístico.
2º Mito: “Brasileiro não sabe português / Só em Portugal se fala bem o português”
“refletem o complexo de inferioridade, o sentimento de sermos até hoje uma colônia de um país mais antigo e “civilizado.”(p.20)
Conclui-se que nenhum dos dois é mais certo ou mais errado, mais bonito ou mais feio: são apenas diferentes um do outro e atendem às necessidades linguísticas das comunidades que os usam, necessidades linguísticas que também são diferentes.
3º Mito: “Português é muito difícil”
Consiste na obrigação que temos de decorar conceitos e fixar regras que perdem seu significado fora da sala de aula.
A regência verbal é o caso típico de como o ensino tradicional da língua portuguesa não leva em conta o uso brasileiro do português.
4º Mito: “As pessoas sem instrução falam tudo errado”
Isso se deve simplesmente a uma questão que não é linguística mas social e política – as pessoas que dizem Cráudia, praca, pranta pertencem a uma classe sócia, desprestigiada, marginalizada, que não tem acesso à educação formal e aos bem culturais da elite, e por isso a língua que elas falam sofre o mesmo preconceito que pesa sobre elas, ou seja, sua língua é considera “feia”, “pobre”, “carente”, quando na verdade é apenas diferente da língua ensinada na escola.
Imagem: Reprodução
5º Mito: “O lugar onde melhor se fala o português no Brasil é no Maranhão”
No Maranhão a população costuma utilizar o pronome TU seguido das formas verbais clássica com a terminação S. (Ex: Tu vai / Tu queres);
Porém no Maranhão também é comum o uso de expressões como: “Esse é um bom livro para ti ler” em vez da forma “correta”: “Esse é um livro para tu leres”.
6º Mito: “O certo é falar assim porque se escreve assim”
Assim como?
TEATRO
– Carioca: Tchi-atru
– Paulista: Tê-atru
– Pernambucano: Té-atru
“E agora? Quem está certo? Ora, todos estão igualmente certos. O que acontece é que em toda comunicação linguística do mundo existe um fenômeno chamado variação, isto é, nenhuma língua é falada do mesmo jeito em todos os lugares, assim como nem todas as pessoas fala a própria língua de modo idêntico o tempo todo” (p.68)
7º Mito: “É preciso saber gramática para falar e escrever bem”
Este mito é um dos mais difundidos. Tão comum é esta afirmação que faz com que cobrança do estudo da gramática seja feita.
Segundo o autor, se esta afirmação fosse verdadeira, todos os gramáticos seriam excelentes escritores, e vice-versa.
8º Mito: “O domínio da norma culta é instrumento de ascensão social”
O autor alega que se o domínio da norma-padrão fosse realmente um instrumento de ascensão na sociedade, os professores de português ocupariam o topo da pirâmide social (p.89)
“O domínio da norma-padrão de nada vai adiantar a uma pessoa que não tenha todos os dentes, que não tem casa decente para morar, água encanada… (p.90)
O círculo vicioso do preconceito linguístico
A Gramática Tradicional inspira a prática de ensino que por sua vez provoca o surgimento da indústria do livro didático, cujos autores recorrem à Gramática Tradicional como fonte de concepções e teorias sobre a língua.
Luta contra o preconceito linguístico – Preconceito linguístico ou preconceito de classe?
O que nós temos que combater é a discriminação, ou seja, quando esse preconceito deixa de ser apenas uma atitude ou um modo de pensar das pessoas e se transforma em práticas sociais.
é preciso reconhecer a existência do preconceito linguístico, conhecer os modos como ele se manifesta concretamente como atitudes e práticas sociais, denunciar isso e criar modos de combatê-lo.
Imagem: Reprodução
Justamente pelo fato de o preconceito linguístico nas sociedades ocidentais ser derivado das práticas escolares, para Bagno, o grande mecanismo para começar a desfazer o preconceito linguístico, a discriminação linguística, está também na pratica escolar: “É muito importante que a escola, em sociedades letradas como a nossa, permita ao aluno esse processo do acesso ao letramento a partir de práticas pedagógicas democratizadoras, em que as variações linguísticas sejam reconhecidas como prática da cultura nacional, que não sejam ridicularizadas.”
“Que a criança, ao chegar na escola falando uma variedade regional menos próxima do padrão, não seja discriminada. Nosso trabalho atualmente se centra muito na escola, nos materiais didáticos e na formação dos professores de português, para que não sejam eles mesmos perpetuadores do preconceito linguístico e da discriminação.”
E continua:
“No caso específico do Brasil, nos últimos oito anos, quase 30 milhões de pessoas saíram da linha da pobreza e com isso vão impor também sua maneira de falar. Outro dado muito importante é que a grande maioria das pessoas que se formam professores (de português, principalmente) vem dessas camadas sociais.
Portanto, o professor que está indo para sala de aula já é falante dessas variedades linguísticas que antigamente eram estigmatizadas. Isso vai provocar um grande movimento de valorização dessas variedades menos prestigiadas.”
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