Língua Pátria - TV Câmara - Programa 3 - Paráfrase

A paráfrase é utilizada em diversos contextos, mesmo que quem a utilize não perceba seu uso. Por isso, é importante compreender quais são suas principais características, seus tipos e como reconhecê-la e utilizá-la corretamente.



Diariamente, os falantes de uma língua comunicam-se por meio de diversos tipos e gêneros textuais, expressam e repassam informações para outras pessoas que, por consequência, as repassam novamente. Ideias são reproduzidas e reaproveitadas, criando relações intertextuais que perpassam todo ato comunicacional.

O que é paráfrase?
A paráfrase consiste na reescrita de um texto, mas mantendo sua essência em termos temáticos, é uma espécie de tradução dentro da própria língua. É um processo de recriação que não utiliza recursos como a ironia ou humor e não desvincula a ideia central previamente apresentada. Portanto, as palavras-chave da paráfrase são reformulação e continuidade, sendo uma forma específica da intertextualidade, isto é, da reutilização e manutenção de um discurso previamente elaborado, um diálogo entre dois textos.

Principais características
As principais características da paráfrase são:



Apresenta o mesmo encadeamento temático do texto original.
Há a utilização de vocábulos e estilo distintos do material fonte.
Não há comentários críticos, humor e ironia em relação às ideias parafraseadas.
Pode ocorrer o uso de expressões como isto é ou ou seja.
A paráfrase diferencia-se da paródia e resumo. A primeira também é a rescrita de um texto, porém há frequentemente o uso da ironia e humor para a criação de um novo sentido. Imagine uma música que já está enraizada na memória coletiva, ela pode ser reescrita por outro compositor que altere seu cerne temático, com o objetivo de ridicularizar ou criticar o texto fonte. Já o segundo, consiste apenas na síntese de um texto, retirando suas informações secundárias.

Tipos de paráfrase
Há dois tipos de paráfrase e elas se diferenciam pela forma como o texto original é recondicionado: na reprodutiva há uma síntese e reiteração; na criativa ocorre a expansão do conteúdo temático.

Paráfrase reprodutiva: possui um laço estreito com a reprodução integral de ideias, isto é, trata-se de quase copiar as informações de um texto. Nesse tipo de paráfrase, a habilidade primordial é a capacidade de reelaborar sentenças sem copiá-las totalmente. Não se trata de um resumo, pois não há exclusão de informações secundárias.
Paráfrase criativa: não consiste apenas em um resumo das ideias, mas a construção de novos significados que remetem ao campo temático do texto principal. Nesse ponto, há semelhança e “o texto parafrástico, nesta categoria, não discorda, mas distancia-se do texto original, indo além da simples reiteração” (CRUZ; ZANINI, 2007, p. 1906). Não é paródia, pois não há uma reescrita com função de humorizar ou ironizar o texto original.
Assim, ambos os tipos de paráfrase permitem perceber a alusão ao original, porém uma não deixa espaço para novas informações relacionadas ao tema, a outra recondiciona e expande o material base, sem que o distanciamento desvincule os dois textos.

Exemplos de paráfrase
Para compreender melhor o funcionamento da paráfrase, seguem alguns exemplos.

Paráfrase reprodutiva
Texto original
“Quando uma mulher cruzava a rua, foi atropelada por um carro. O motorista fugiu e não prestou socorro, porém algumas pessoas conseguiram anotar a placa. A vítima foi levada ao hospital mais próximo e os médicos disseram que sua condição é estável.”

Paráfrase
“Ao cruzar a rua, um carro atropelou uma mulher. A placa foi anotada por testemunhas no local, o motorista ignorou o acidente que causou e fugiu. Um hospital nas proximidades recebeu a vítima e os médicos falaram que seu quadro é estável.”

A paráfrase reprodutiva preocupa-se em manter a maior fidelidade possível em relação às informações originais. No texto acima foram realizadas primordialmente mudanças de cunho sintático e a utilização de sinônimos para evitar uma cópia integral. Por exemplo, a sentença quando uma mulher cruzava a rua, composta por uma conjunção, foi substituída por uma oração reduzida de infinitivo iniciada por preposição. Além disso, as palavras pessoas e condição foram trocadas por testemunhas e quadro. As alterações realizadas não modificam o sentido, sendo uma simples reiteração de ideias do trecho original.

Paráfrase criativa
Texto original
Canção do exílio, de Gonçalves Dias
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite –
Mais prazer encontro eu lá.

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá.

Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Paráfrase
Canção do exílio facilitada, de José Paulo Paes
lá?
ah!
sabiá…
papá…
maná…
sofá…
sinhá…
cá?
bah!

Gonçalves Dias e José Paulo Paes são escritores distintos, separados por mais de um século, o primeiro pertence à primeira fase do Romantismo brasileiro e o segundo é considerado um dos últimos modernistas. O poema Canção do exílio é amplamente conhecido e trata da saudade da terra natal por parte do eu-lírico, e já foi parafraseado e parodiado diversas vezes na literatura brasileira.

Lá e cá exprimem a relação de distância, com isso, considerando o conhecimento prévio do leitor, ele reconhecerá plenamente o assunto do texto, além de notar a semelhança fonética pelo uso de vocábulos terminados com o fonema vocálico /a/. Entretanto, Paes acrescenta palavras como sinhá que remetem ao tempo da escravidão e adiciona a palavra facilitada ao título, o que permite já reconhecer a diferença estética entre os dois poemas. Assim, não há discordância, mas a adição de informações novas que não descaracterizam a temática do texto original, marcando uma paráfrase criativa.

Portanto, é importante salientar a variedade de usos da paráfrase, sendo utilizada desde o ambiente escolar à comunicação diária.

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