Estudantes perguntam (1)
Não sei a diferença entre afim e a fim. Pode me ajudar? (Mateus Esteves Silva)
Afim pertence à família de afinidade. Quer dizer que tem semelhança, igualdade, ligação. Adjetivo, tem plural: Literatura é disciplina afim à história. Sogro e nora são parentes afins. Também pode ser uma função matemática
A fim de, locução prepositiva, tem dois sentidos. Quer dizer:
1. para, com a intenção de: Estudo a fim de passar no concurso. Trabalho três expedientes a fim de trocar de carro.
2. com vontade de: Vamos ao cinema? Não estou a fim.
Qual a forma correta: “entre eu e você” ou “entre mim e você”? (Karla Cristina de Almeida)
O pronome reto tem alergia à preposição. Diante dela, o eu dá a vez ao mim: Gosta de mim. Dirigiu-se a mim. Trouxe o presente para mim. Nada existe entre mim e você.
Qual a diferença entre as expressões “ao encontro de” e “de encontro a”? (Mateus Rocha)
Ao encontro de quer dizer a favor de ou na direção de: O projeto veio ao encontro de seus interesses. O resultado das eleições pareceu-lhe vir ao encontro das ambições do prefeito. Caminhou ao encontro do filho.
De encontro a quer dizer contra ou em sentido contrário: O carro foi de encontro à árvore. O projeto vai de encontro às pretensões do governador.
1. A explicativa vem depois de ordem ou pedido: Entre, porque está fazendo frio. Por favor, ajude-me, porque não consigo trocar o pneu do carro. Sorri, porque Jesus te ama.
2. A causal, como o nome sugere, indica causa. Há, entre as duas orações, relação de causa e consequência: Cresce o número de desabrigados (consequência) porque a chuva não para (causa). Não vai ao cinema (consequência) porque está sem dinheiro para pagar o ingresso (causa). Eu canto (consequência) porque o instante existe (causa).
Superdica: o porquê explicativo é antecedido de vírgula. O causal tem alergia ao sinalzinho. “Xô”, diz ele. A conjunção atente sem tossir nem mugir. Ela sabe que manda quem pode, obedece quem tem juízo.
Qual é a forma correta: “Sorria, Jesus te ama” ou “Sorri, Jesus te ama”? (Rodrigo Lima)
Olho nos pronomes, Rodrigo. No 1º período, ocorre o samba da mistura doida. Ao dizer “sorria”, tratamos o interlocutor por você. Mas usamos o pronome te. Dando a César o que é de César, temos uma destas duas construções: Sorria, Jesus o ama. Sorria, Jesus ama você.
No 2º enunciado, respeitamos as pessoas. Sorri (tu), Jesus te ama. Nota 10. No primeiro, desceu quadrado, há uma indigestão gramatical.
Sempre me confundo ao escrever em cima e embaixo. Nunca sei quando é junto ou separado. Qual é o critério para a escrita da dupla? (Guilherme Augusto Campos)
Nem sempre a grafia tem lógica, Guilherme. É o caso de em cima e embaixo. Uma se escreve separada. A outra, junta. Na dúvida, só há uma saída. Consulte o dicionário. Ele é o amigo que nunca falha.
Andando pela rua, vi placas escritas com estas duas formas: “Não pise na grama” e “não pise a grama”. Qual é a certa? (Henrique Soares Almeida)
Em geral, Henrique, pisar é transitivo direto. Mas tolera ser indireto: pisou o tapete, pisou no tapete; pisou as fitas, pisou nas fitas; pisar a grama, pisar na grama.
É sempre errado utilizar pleonasmo ou há alguma situação em que essa figura de linguagem é bem-vinda? (Fernando de Albuquerque, 18 anos)
A palavra pleonasmo vem do grego. Na língua de Platão e Aristóteles, quer dizer superabundância. Em bom português: repetição de uma ideia com palavras diferentes.
Há pleonasmos e pleonasmos. Alguns não dão nenhuma expressividade à frase. Aí, deixam de ser figuras de linguagem e passam a ser vício. É o caso de comer com a boca, subir pra cima, descer pra baixo, entrar pra dentro, sair pra fora, elo de ligação, ver com os olhos.
Outros pleonasmos acrescentam graça e força à frase. São bem-vindos: “Ele sabe pescar peixe, mas não sabe pescar homens.” “Ver com meus olhos não é o mesmo que ver com os dedos.” “Esse ouro e prata, posto que naturalmente desce pra baixo, havia de subir para cima.”
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Costumo ficar em dúvida ao escrever algumas expressões com a e há. O certo é “a poucos dias” ou “há poucos dias”? “Daqui a dois anos” ou “daqui há dois anos”? (João Gabriel Estrela Brey, 16 anos)
Rapaz, essa dúvida não é só sua. Ela ataca estudantes, profissionais ou simples mortais. Como mandar a incerteza plantar batata no asfalto? Lembre-se destas dicas:
a. o há indica tempo passado: Cheguei há pouco. Moro em Brasília há dois anos. Vi o filme há poucos dias. Preparo minha entrada na universidade há anos.
b. o a indica tempo futuro: Daqui a dois meses, vou fazer meu primeiro vestibular. Espere, vamos chegar daqui a pouco. A menos de seis meses das eleições, os partidos ainda não definiram os candidatos.
Olho vivo! Na língua impera a lei do lé com lé, cré com cré. Se o verbo da oração principal está no imperfeito, o haver não pensa duas vezes. Vai atrás: Falava havia mais de meia hora. Morávamos na cidade havia dois meses quando conheci João. Havia 40 minutos que esperava na fila.
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Como faço para evitar a ambiguidade do seu e sua? (Franco Ferreira Mota, 18 anos)
Eta pronome perigoso! Ele parece inofensivo. Mas causa senhores estragos à frase. Quase sempre dá duplo sentido à declaração. A gente diz uma coisa. O receptor entende outra. Ou fica confuso. Veja:
O presidente garantiu aos parlamentares que o seu esforço levaria à aprovação da emenda.
Esforço de quem, cara pálida? Dos parlamentares? Do presidente? Ambígua, a frase permite duas leituras. O que fazer? Partir para o troca-troca — substituir o possessivo pelo pronome dele: O presidente garantiu aos parlamentares que o esforço dele levaria à aprovação da emenda. O presidente garantiu aos parlamentares que o esforço deles levaria à aprovação da emenda.
Certas palavras, Franco, rejeitam o possessivo. Aproximá-las é briga certa. Evite confusões. Dispense o indesejado. Não o use com:
a. as partes do corpo: Na batida, quebrou o dedo (nunca: seu dedo). Arranhou o rosto. Fraturou o fêmur.
b. os objetos de uso pessoal e as peças do vestuário: Calçou os sapatos (não: seus sapatos). Pôs os óculos. Vestiu a saia.
c. as qualidades do espírito: Perdeu a confiança (não: sua confiança). Tem a vida por um fio. Recuperou a memória.
Superdica: em 90% dos casos, o possessivo sobra, pode ser dispensado e substituído pelo artigo, que já indica posse: Fez a (sua) redação. Pegou o (seu) carro. Perdeu as (suas) chaves. Xô!
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Depois de interjeições, é necessário usar alguma pontuação? (Kayanne Ramos Fernandes, 14 anos)
A interjeição, Kayane, traduz emoção. Por isso pede ponto de exclamação: ah!, oh!, olá!, oxalá!, tomara!, ui!, alto!, psiu!, cuidado!, alerta!.
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Quando dar a vez a onde e aonde? (Isabella Cristine da Silva, 16 anos)
O aonde, Isabella, é raro como viúvo na praça, mas é correto. Pra aparecer, impõe uma condição: a existência de verbo de movimento que exija a preposição a. É o caso de ir. O monossílabo joga no time do vaivém e pede a preposição a (quem vai vai a algum lugar): Aonde você vai? Não sei aonde você me levou. Gostaria de saber aonde você chegou.
Atenção, marinheiros de primeira viagem. Não se precipitem. Há verbos que são de movimento, mas não regem a preposição a. E vice-versa. Com eles, só o onde tem a vez: Onde você assistiu à palestra? Não sei onde você ficou. Gostaria de saber onde você mora. Onde ele trabalha? Ninguém sabe onde ele está.
Quando usar que e quê? (Henrique de Matos Patu, 17 anos) Henrique, acento tem tudo a ver com pronúncia. Agudo e circunflexo só caem sobre a sílaba tônica. Em dissílabos, trissílabos e polissílabos, descobrir a mais forte é fácil como arrancar promessa de político. É com os monossílabos que a porca torce o rabo. Os pequeninos obedecem à mesma regra das oxítonas. Acentuam-se os terminados em a, e e o, seguidos ou não de s. Compare: sofá (já), estás (dás), você (dê), vocês (dês), cipó (dó).
Alguns dão nó em fumaça. É o caso do quê. As três letrinhas mudam de time como modelo troca de roupa. Ora são conjunção. Ora pronome. Ora substantivo. A primeira equipe não oferece problema. O trio se apresenta sempre com a mesma cara. Veja: Disse que sairia mais cedo. Entre, que vem chuva braba. Também pode ser advérbio, partícula expletiva ou preposição. Nesses, também não oferece probleminha nem problemão.
As outras provocam dor de cabeça. Por duas razões. De um lado, elas têm o poder da mobilidade. Saltam daqui para ali como macaco salta de galho. De outro, variam de classe gramatical. Passam de pronome a substantivo com facilidade. Elas fazem as artes. Nós pagamos o pato. O preço dessas mudanças é o acento. Quando usá-lo? Em duas oportunidades:
1. Quando o quê for substantivo. Aí será antecedido de pronome, artigo ou numeral. Como todo nome, tem plural: Giselle tem um quê de sedutor. Qual o mistério dos quês? Corte os quês da redação. Belo quê você introduziu no discurso. Quem mandou?
2. Quando o quê for a última palavra da frase – a última mesmo, coladinha no ponto: Trabalhar pra quê? Riu, mas não disse por quê. Você se atrasou por quê? Ele se ofendeu com quê?
É isso. Desvendados os dois empregos, o quê recolhe-se à própria insignificância. Redatores que arrancam os cabelos por causa do acentinho chegam à conclusão óbvia: não há por que temer o quê. Bem-vindo se escreve junto ou separado, com ou sem hífen? (Igor Campos, 13 anos)
Hífen é castigo de Deus. Existem regras. Mas são tantas as exceções que só há uma saída. É consultar o dicionário. O pai de todos nós diz que bem-vindo se escreve assim — um lá e outro cá.
Sempre me confundo com trás e traz. Como fazer para não errar de novo? (Luísa Schneider, 18 anos)
Luísa, diante da dúvida, pergunte-se: a palavra é verbo ou não? Se for verbo, trata-se do verbo fazer. Fazer se escreve com z. Todas as formas dele derivadas em que soa o z se grafam com a mesma letra (traz, trazemos, trazem). Não é verbo? Então dê passagem ao s: Vi Paulo por trás das cortinas. Andou para trás.
Por que viajar se escreve com j e viagem com g? Tenho problemas com a troca dessas letras na hora de escrever. (Ana Luísa de Melo Monteiro, 13 anos)
Olho vivo, Ana Luísa. Viajar tem j no radical. Seguido de qualquer vogal, o j mantém o som. Por isso, viajar se conjuga sempre com j: eu viajo, ele viaja, nós viajamos, eles viajam; que eu viaje, ele viaje, nós viajemos, eles viajem.
Apesar da lógica, a forma viajem (que eles viajem) sofre agressões impiedosas. Muitos, mas muitos mesmo, escrevem-na com g. Tropeçam. Viagem é substantivo. O nome não tem nada a ver com o verbo. Um pertence a uma classe. O outro, a outra: agência de viagem; viagem ao Rio; preparativos para a viagem.
Bateu a dúvida? Banque o esperto. Revide. Recorra a macete pra lá de conhecido. Ponha a palavra no plural. Se ela joga na equipe de homens e jovens, não duvide. Você está às voltas com o substantivo. Veja: Eles querem pôr o pé na estrada? Que ponham. Viajem e façam boa viagem. (Viajem e façam boas viagens.)
Sempre fico na dúvida com alguns homônimos. Alguma dica para que eu não esqueça mais quando devo usar sessão, seção e cessão? (Thomás Caixeta)
Thomás, a dúvida é sua e de meio mundo. Vamos acabar com ela? Guarde estas dicas:
Cessão, seção e sessão jogam no time dos homófonos. Têm a mesma pronúncia, mas grafia e sentido diferentes. Por isso causam desentendimentos, dores de cabeça e não poucos vexames. Vamos pôr ponto final na farra?
Cessão é substantivo derivado do verbo ceder. Ambos começam com a mesma letra: O cartório registra a cessão dos bens. A cessão de direitos é assunto complicado. O caso trata da cessão de propriedade.
Seção é a parte de um todo. Quer dizer departamento. No supermercado, há a seção de frutas, a seção de material de limpeza, a seção de bebidas. Na loja, a seção de roupas infantis, a seção de roupas femininas, a seção de roupas masculinas. Na farmácia, a seção de cosméticos, a seção de beleza e a seção de remédios. Na empresa, a seção do RH, a seção do financeiro e a seção do atendimento. E também a seção eleitoral.
Sessão é o todo. Dá nome ao tempo que dura uma reunião, um espetáculo ou um trabalho: sessão de cinema, sessão do Congresso, sessão de terapia, sessão da tarde, sessão espírita.
Dica: o todo é maior que a parte. Por isso, sessão tem seis letras; seção, cinco. ***
Como diferenciar oração sem sujeito e sujeito indeterminado? (Leandro Lima Valença)
Leandro, se você desvendar o segredo de um, o outro fica fácil, fácil. Tão fácil quanto tirar chupeta de bebê. Vamos lá?
As orações sem sujeito são construídas com verbos muito especiais. Eles, de uma forma ou de outra, têm relação com o tempo. Veja:
verbos que indicam fenômenos da natureza: Chove muito no verão. No Brasil, raramente neva. Relampejou ontem à noite? No horário de verão, amanhece tarde em Brasília. Puxa! Já anoiteceu?
verbos ser, fazer e haver quando indicam contagem de tempo, hora, data ou distância: São duas horas. Faz dois anos que visitei a França. Cheguei há cinco horas. São 17 de setembro. São treze quilômetros até o cartório.
Verbo haver no sentido de existir, acontecer ou realizar-se: Há (existem) duas pessoas na sala. Durante a manifestação, houve (aconteceram) vários confrontos com a polícia. Houve uma exposição nesta semana. (realizou-se).
Olho vivo, Leandro. Os verbos impessoais podem se tornar pessoais. Basta ganharem sujeito. Aí, perdem o privilégio. Têm de concordar com o sujeito. Quer ver? Choveram aplausos depois do discurso (suj. aplausos). Hoje amanheci cheia de disposição (suj. eu). Paulo fez 20 anos (suj. Paulo).
O sujeito indeterminado joga em outro time. No caso, alguém pratica a ação. Mas, por conveniência ou ignorância, ele não é referido. Trata-se de ótimo recurso para fofocas. Observe o diálogo travado entre Luís e Maria.
Maria diz: — Luís, falaram mal de você.
— Quem falou?
— Ah, falaram.
Viu? Maria sabe quem andou manchando a reputação do Luís. Mas contou o milagre sem citar o santo. Como? Recorreu à 3ª pessoa do plural.
O pronome se também se presta pra indeterminar o sujeito — mas só com verbos intransitivos, de ligação ou transitivos indiretos: Era-se mais feliz nos anos 90. (de ligação). Dorme-se mal no calor (intransitivo). Precisa-se de pedreiros (transitivo indireto). Para indeterminar o sujeito com verbos transitivos diretos, é necessário um objeto direto preposicionado: Ama-se a Deus nesta igreja.
Os transitivos diretos acompanhados do se formam a voz passiva sintética. Têm sujeito e precisam concordar com ele: Vende-se esta casa. Vendem-se todas as casas da rua. Conserta-se carro. Consertam-se carros. Corrigiu-se o erro. Corrigiram-se os erros. ***
Quando e como posso usar travessões para destacar uma frase importante?
(Ana Luísa Lopes)
O travessão (—) é muito versátil. Como Bombril, tem mil e uma utilidades. Entre elas, destaca um termo opaco, escondido. Dá realce ao sem-graça. No caso, substitui a vírgula ou os dois pontos. Compare:
Lula conseguiu, até, a adesão dos adversários. Lula conseguiu — até — a adesão dos adversários. Brasília, a capital do Brasil, vai completar 50 anos. Brasília — a capital do Brasil — vai completar 50 anos. Eis o grande vencedor: o filme que faturou 300 milhões de dólares. Eis o grande vencedor — o filme que faturou R$ 300 milhões.
O estado de São Paulo, o mais afetado pelas chuvas, precisa de obras de infraestrutura. O estado de São Paulo — o mais afetado pelas chuvas — precisa de obras de infraestrutura. Usa-se travessão com vírgula? Só num caso. Se o segundo travessão coincidir com a vírgula:
Depois da vitória do governista — com mais de 50% dos votos —, o padrinho sentiu-se forte como Tarzã.
Viu? Sem o travessão, só haveria a vírgula final:
Depois da vitória do governista com mais de 50% dos votos, o padrinho sentiu-se forte como Tarzã.
Quando saiu de casa — lá pela meia-noite —, deixou a família reunida. (Quando saiu de casa lá pela meia noite, deixou a família reunida.)
Deu para entender? O casamento da vírgula com o travessão é raro como viúvo na praça. Raro, porém correto. Não confunda. No caso em que podem aparecer duas vírgulas em vez dos dois travessões, a vírgula não tem vez:
Redigir — na definição do Aurélio — é escrever com ordem e método. (Redigir, na definição do Aurélio, é escrever com ordem e método.)
Use. Mas não abuse. Coloque apenas dois travessões no mesmo parágrafo. Mais que isso desorienta. Deixa o leitor confuso como cego em tiroteio.
Ricardo Riemma quer saber: “Quando posso utilizar esse e este?”
Ricardo, os pronomes demonstrativos são pra lá de versáteis. Têm três empregos. Num, indicam situação no espaço. Noutro, no tempo. Noutro, ainda, no texto.
Vamos a eles?
Situação no espaço
Este diz que o objeto está perto da pessoa que fala (eu, nós): esta bolsa, este livro, esta cadeira (a bolsa, o livro e a cadeira estão perto de mim).
Esse anuncia que o objeto está perto da pessoa com quem se fala (tu, você, Vossa Senhoria, Vossa Excelência): essa bolsa, esse livro, essa cadeira (a bolsa, o livro e a cadeira estão perto de você).
Aquele informa que o objeto está longe de quem fala e de quem escuta: aquele livro, aquela bolsa, aquela cadeira (a bolsa, o livro, a cadeira estão longe do falante e do ouvinte)
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Situação no tempo
Este indica tempo presente: este ano (2009), este mês (novembro), esta semana (a semana em curso).
Esse e aquele falam em tempo passado. Esse, passado recente. Aquele, passado remoto: Conheci João em 2007. Nesse tempo ele se preparava para o vestibular. Estive em Granada em 1992. Naquele ano, visitei toda a Andaluzia.
Esse também pode ser usado para o futuro: em 2026, a Itália vai sediar as Olimpíadas; nesse ano...
Ops! Como saber se o passado é recente ou remoto? Tempo é relativo. Depende de cada um. Você define.
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Situação no texto
Este indica referência anterior. A gente apresenta algo que virá em seguida:
O conselheiro Acácio não se cansava de repetir esta obviedade: “As consequências vêm depois”.
Esse exprime referência posterior. A gente diz algo e o retoma depois: “As consequências vêm depois”. O Conselheiro Acácio não se cansava de repetir essa obviedade.
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Amanda Silva quer saber: “Em que ocasiões devo usar incluído ou incluso?”
Incluir, Amanda, joga no time dos verbos abundantes. Generosos, eles têm mais de um particípio. Um regular, terminado em -ado ou -ido. Outro irregular, mais curtinho. É o caso de matar e imprimir (matado e morto, imprimido e impresso). uando usar um ou outro? Depende do auxiliar. Use o regular com os auxiliares ter e haver; o irregular, com ser e estar:
Ele havia (tinha) incluído o documento no processo. O caçador tinha (havia) matado a perdiz. A perdiz foi (está) morta. A aluna tinha imprimido o trabalho. O trabalho é (está) impresso. O advogado tinha (havia) incluído o documento no processo. O documento foi (está) incluso no processo.
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Rafaela Vargas confessa: Minha dúvida é quanto ao uso do hífen na nova reforma ortográfica. Pode me ajudar?
O hífen é castigo de Deus. Cheio de regras e exceções, dá nó nos miolos dos estudantes e profissionais. A reforma trouxe alguma simplificação às normas, mas nos obriga a recorrer ao dicionário com frequência. De qualquer forma, vale a pena conhecer as duas regras de ouro. Sobre os prefixos, use hífen:
1. quando eles forem seguidos de h: anti-horário, super-homem, proto-história, sobre-humano
2. quando duas letras iguais se encontram: micro-ondas, anti-inflamatório, tele-entrega, contra-argumento, inter-relação
Em bom português: O h é soberano. No mais, os diferentes se atraem. Os iguais se rejeitam: semi-histórico, semi-internato, semivogal.
Olho vivo: co- e re- sofrem de alergia. Não aceitam o tracinho nem a pedido dos orixás: coerdeiro, coordenação, reenviar, reorganizar.
Sub é cuidadoso. Pra evitar a formação de encontro consonantal, pede mais um hífen. O tracinho tem vez quando antecedido de r: sub-região, sub-ramo.
No verso de Vinícius de Moraes “Que não seja eterno, posto que é chama” o termo “posto que” está empregado de forma correta?
Marina Senra Rabello
Pra quem não se lembra, eis o “Soneto da fidelidade”, referido pela Marina:
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
As gramáticas classificam o posto que como locução conjuntiva concessiva. Joga no time de embora, mesmo que, apesar de. Mas a ideia do verso é causal / explicativa. “Que não seja imortal porque é chama”. Vinicius errou? Artista tem licença poética. Pode pisar a língua sem susto. O poetinha empregou o posto que como popularmente se emprega (como causal ou explicativa), mas não como manda a norma culta. Esse uso é influência do espanhol.
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Na oração “Por amor ao filho lançou-se o pai ao rio”, quais os termos que exercem a função de sujeito e objeto, visto que “o pai” é agente e paciente da ação?
Denny Elder Peixoto
Denny, a ordem inversa é calo no pé. Pra fazer a análise sintática, ponha a frase na ordem direta (O pai lançou-se ao rio por amor ao filho.) Vamos à análise?
Sujeito: pai
Predicado verbal: lançou-se ao rio por amor ao filho
Núcleo: lançou
Objeto direto (quem lança lança alguém ou alguma coisa): se
Adjunto adverbial de lugar: ao rio
Adjunto adverbial de causa: por amor ao filho
Núcleo: amor
Complemento nominal: ao filho
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Estão corretas as frases: “A entrada no parque é proibida” e “É proibido entrar no parque”? Qual a função sintática de “entrada” e “entrar”?
Georgia Almeida Magalhães
Georgia, as duas construções merecem nota 10. Ambas dão o mesmo recado. Só muda o jeitinho de dizer. Vamos à análise dos ilustres enunciados?
É proibido entrar no parque.
O período tem duas orações:
Oração principal: é proibido
Oração subordinada substantiva subjetiva reduzida de particípio: entrar no parque
A entrada no parque é proibida.
Aí temos uma oração:
Sujeito simples: a entrada no parque
Predicado nominal: é proibida
Predicativo: proibida
*
“Se tiverem que ser decididas no último instante as questões ainda não discutidas, não me responsabilizo mais pelo projeto”. As orações estão na ordem inversa. Como reescrevê-las na ordem direta? Qual das duas formas é preferível?
Meyrianne Almeida Barbosa
A ordem direta torna o enunciado mais claro e, em consequência, mais fácil. Veja: Não me responsabilizo mais pelo projeto se as questões ainda não discutidas tiverem de ser decididas no último instante.
A classificação fica mole, mole:
Oração principal: Não me responsabilizo mais pelo projeto
Oração subordinada adverbial condicional: se as questões ainda não discutidas tiverem de ser decididas no último instante
Qual a diferença entre elipse e zeugma? (Marcela Walcacer, 17 anos, estudante do 3º ano do ensino médio)
Elipse e zeugma têm um ponto comum. Ambos ocultam termos da oração. Mas o esconde-esconde apresenta uma diferença. Trata-se da citação. Entenda a manha:
1. Na elipse, o termo está tão na cara que nem precisa ser dito. É o caso dos pronomes sujeitos. Ao dizer “cantamos”, ninguém precisa escrever nós. O sujeito está subentendido na desinência verbal. O mesmo ocorre com canto, cantas, cantam.
2. Às vezes, quem se faz de morto é o verbo. Nos provérbios, o truque fica pra lá de claro: Cada macaco (fica) no seu galho. Dia de muito (é) véspera de pouco. Casa de ferreiro (tem) espeto de pau.
Poetas adoram o recurso. Vale o exemplo de “Irene no céu”, de Manuel Bandeira. Lembra-se?
Irene preta,
Irene boa,
Irene (está) sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
— (Dá) licença, meu branco?
E São Pedro bonachão (responde):
— Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.
3. Ligações adoram se esconder. Quer ver? Peço-lhe (que) me deixe sair. Despertamos já (com) o sol nascente. Peço (que) me seja concedida a graça.
No zeugma, a história muda de enredo. Mas só um pouquinho. O termo que se esconde foi citado antes. Depois, fica subentendido: Paulo saiu às 3h; nós, às 5h. (Paulo saiu às 3h, nós saímos às 5h.)
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Eu ainda tenho muita dúvida sobre a nova regra do hífen. Quais são as principais mudanças? (Marco Antonio de Rezende Soares, 16 anos, estudante do 2º ano do ensino médio)
O hífen é castigo de Deus. Dá nó nos miolos de todo mundo. Até o Senhor tem dúvidas diante de tantas normas e tantas exceções. A reforma ortográfica trouxe alguma simplificação. Deixou-nos duas regras de ouro. Use o tracinho quando:
1. o prefixo for seguido de h: anti-histórico, super-homem, semi-humano
2. duas letras iguais se encontrarem (a última letra do prefixo e a primeira da palavra que o segue): semi-internato, super-resistente, semi-intensivo, sub-bloco, micro-ondas, tele-educação.
Olho nas exceções:
1. Co- e re- têm alergia ao hífen. Com eles é tudo colado: coordenar, coerdeiro, cofator, coenzima, coparticipação, cosseno, reeleição, reumanizar, ressurgir, rerratificar, reencontro, reencarnação.
2. Sub-, além do b, exige o tracinho quando seguido de r. sabe por quê? Pra evitar o encontro consonantal: sub-raça, sub-regional.
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Quais são os principais problemas de adaptação ao novo acordo ortográfico? (Juliana Ciarlini, 17 anos, estudante do 3º ano do ensino médio)
O maior problema é esquecer o velho e aprender o novo. A leitura ajuda muito no processo. Sabe por quê? Ortografia é fixação. Quanto mais vemos a palavra escrita, melhor a memorizamos. Os jornais e revistas adotaram a nova grafia. São excelentes amigos na memorização de hifens e acentos.
Por que a crase não foi eliminada pelo acordo ortográfico? Marina Carlos, 15 anos, estudante do 2º ano do ensino médio
Como o nome diz, Marina, o acordo é ortográfico. Só alterou a grafia de palavras. Retirou o trema e alterou regras de acentuação e emprego do hífen. De quebra, reintroduziu o k, o w e o y ao nosso alfabeto. A pronúncia das palavras, a gramática (fonologia, morfologia, sintaxe, semântica, estilística), redação e interpretação de textos, literatura e redação oficial não foram nem arranhadas. Ficam como dantes no quartel de Abrantes.
Não entendo muito bem como funcionam as variações da colocação pronominal. Como saber? Kim Santi Passaretti, 17, candidata a uma vaga no curso de direito
A colocação dos pronomes no Brasil se distanciou da norma de Portugal. Atrevida, tomou rumos próprios. Eles se reduzem a duas regras. Uma: não inicie frase com pronome átono. A outra: ponha o pronome sempre antes do verbo. Assim: Dize-me com quem andas que te direi quem és. O visitante se tinha retirado antes da sobremesa. Continuamos a nos exercitar em línguas estrangeiras.
Olho vivo, Kim. Iniciar frase com pronome átono tem dois significados. Um é claro. Quer dizer não começar o período com o fracote: Ofereceu-me aumento de salário. Retirou-se antes de mim. Foi-se embora sem se despedir.
O outro é malandro. Não parece, mas é. Quando ocorre pausa que desampara o pronome, ele vai pra trás. Que pausa? Vírgula ou ponto e vírgula. Compare: Aqui se fala português. Aqui, fala-se português. Agaciel chantageou o senador? Não; refrescou-lhe a memória. Para se retirar, pediu-me autorização.
Qual é a diferença entre adjunto adnominal e predicativo do sujeito? Grazieli Hemielewski de Souza, 21, estudante de cursinho
O nome ajuda a identificar um e outro. Adjunto adnominal quer dizer “que vem junto do nome”. Ad é um prefixo de origem estrangeira que significa junto. Traduzindo, seria o mesmo que junto junto junto do nome, um pleonasmo, bastaria dizer apenas adnominal.
Não importa a função sintática do nome. Pode ser sujeito, objeto direto, objeto indireto, complemento nominal, predicativo, adjunto adverbial, agente da passiva, aposto, vocativo. Artigo, adjetivo, pronome, numeral, locução adjetiva que acompanham o substantivo jogam no time do adjunto adnominal. Veja:
A casa amarela é bonita. (A casa amarela é o sujeito. A e amarela acompanham o núcleo, casa. São adjuntos adnominais do sujeito.)
Comprei uma bolsa nova. (Bolsa nova é objeto direto. Uma e nova acompanham o núcleo, bolsa. São adjuntos adnominais do objeto direto.)
Trabalho em lugar seguro. (Lugar seguro é o adjunto adverbial. Lugar é o núcleo. Seguro, o adjunto adnominal do adjunto adverbial.).
Predicativo do sujeito? É o modo de ser do sujeito. Alérgico, não se liga ao sujeito. Liga-se a ele com a ajuda do verbo de ligação: Maria é bonita. Maria está bonita. Maria ficou bonita. Maria parece bonita. Maria continua bonita. Maria anda bonita. Maria tornou-se bonita. Maria virou bonita.
Resumo da opereta: o verbo de ligação faz a diferença.
Ouvi dizer que porta-retratos ganhou nova grafia — portarretrato. É verdade?
Thiago Henrique Modesto, 18, está estudando para passar no curso de medicina
Não, Thiago, não é. Antes da publicação do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), havia muiiiiiiiiiiiiiiita confusão sobre as manhas do hífen. Aí, não deu outra. Sobraram chutes. Uma das vítimas foi porta-retratos. Porta-retratos e toda a turma formada pelo verbo porta mantêm o tracinho. É o caso de porta-malas, porta-luvas, porta-voz, porta-chaves, porta-celular, porta-copos, porta-revistas. Não confunda com autorretrato, que perdeu o hífen, é formada pelo prefixo auto, o que justifica a ausência do hífen e a duplicação da consoante R.
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